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22 ago 2019

COMO A PREP PODE MUDAR A VIDA SEXUAL DOS BRASILEIROS

CONDENADO PELA HISTÓRIA, O RETRATO DO HIV ESTÁ MUDANDO NO BRASIL

Prestes a completar 40 anos de seu primeiro caso noticiado, o vírus do HIV ainda é um estigma para grande parte da população LGBT+ que viveu o boom de sua aparição na década de 1980.

Hoje, ainda são mais de 37 milhões de pessoas infectadas no mundo, 830 mil apenas no Brasil segundo dados da UNAids, o programa oficial da ONU para combater a doença.

Mas esse quadro pode estar na iminência de mudar drástica e definitivamente com o desembarque do Truvada no país.

Truvada: profilaxia à vista? Foto: NIAID
Truvada: profilaxia à vista? Foto: NIAID

De acordo com o Boletim Epidemiológico de Aids 2016, disponibilizado pelo Ministério da Saúde através da Secretaria de Vigilância em Saúde, o recorte de maior incidência das pessoas infectadas por HIV no Brasil é entre homens brancos de 20 a 29 anos que mantêm relações sexuais com outros homens.

Apenas em Porto Alegre, a capital recorde de novos casos no último ano, a estimativa é de 74 notificações para cada 100 mil habitantes.

Para aqueles que presenciaram o início de sua descoberta, o vírus ainda é motivo de medo, como um fantasma sempre à espreita, pronto para a próxima vítima; já quem inicou a vida sexual nos últimos anos, a doença muitas vezes não passa de algo crônico como diabetes, pressão alta ou ansiedade.

“Os jovens hoje têm muito mais liberdade e possibilidades. Como resultado disso, temos um aumento do uso abusivo de álcool, cigarro e drogas, da hipersexualização dos comportamentos e das músicas. O HIV é apenas mais um item nesse pacote”, analisa Rico Vasconcelos, médico infectologista no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

DOENÇA IGNORADA

Mesmo com todos os avanços sociais e políticos, a epidemia do HIV ainda se espalha sistematicamente por algumas populações-chave no mundo inteiro, principalmente entre aquelas já privadas de liberdade e de direitos básicos.

Essas minorias sociais e parcelas criminalizadas da população – como homossexuais, transexuais, usuários de drogas injetáveis, profissionais do sexo, entre outros – frequentemente tratam a doença como tabu, mesmo estando entre os grupos de maior risco.

“O HIV e sua prevenção infelizmente são evitados dentro dos movimentos LGBT+, por considerarem que isso reforça estigmas criados na década de 80 e que ainda perduram. Enxergo isso como um atraso”

– Rico Vasconcelos

Ignorar a doença, ele pontua, pode ser a forma mais eficaz de aumentar seu raio de alcance.

“Vivemos num país que teve 0,4% da população geral com o vírus em 2016. Cerca de 20% dos gays e mais de 30% das mulheres trans convivem diariamente com a doença. Essa epidemia é sim um assunto prioritário da população LGBT+. Negar isso só permite que mais pessoas contraiam o HIV”, defende Rico.

Positivo e com carga viral indetectável há quase nove anos, o produtor cultural, ator, ativista e youtuber Rafael Bolacha faz ressalvas:

“Apesar de ser evitado, dentro das ações do meu projeto, o ‘Uma Vida Positiva’, observo que a população LGBT+ está mais aberta para dialogar sobre o assunto, e, muitas vezes, mais informada. Eu mesmo não fico todo momento unindo o fato de ser gay com o HIV. Depende do foco da conversa”, explica.

Idealizado e erenciado por Rafael, o “Uma Vida Positiva” surgiu a partir do blog de mesmo nome criado por ele em 2010, cujo objetivo era “exteriorizar os sentimentos e os pensamentos que abatem o indivíduo ao se descobrir soropositivo”.

Hoje, o projeto cresceu tanto que já abrange diversos setores comunicacionais; além do blog, há também um livro lançado pela FNAC em 2013, um programa de Web Rádio, palestras, dança e um documentário longa-metragem que está em fase de pré-produção.

O livro nascido a partir do blog “Uma Vida Positiva”, de Rafael Bolacha, lançado pela FNAC em 2013

TRATAMENTO

No Brasil, o tratamento mais popular de controle do HIV é uma combinação de remédios conhecida como “coquetel” e distribuída gratuitamente pelo SUS.

Os medicamentos são tomados todos os dias, no mesmo horário, com a intenção de bloquear a multiplicação do vírus no organismo até que ele chegue a um nível indetectável. É apenas então que não existe mais progressão da doença causada pelo HIV e nem a transmissão por via sexual, mesmo que o sexo seja praticado sem camisinha.*

Essa combinação de remédios, diga-se de passagem, é definida pelo próprio infectologista do paciente, mudando de acordo com o organismo e as reações de cada pessoas.

Cerca de 30 dias após o início da medicação, é possível identificar se a taxa do vírus já se tornou indetectável através de uma rotina mais rigorosa de exames de sangue. E, da mesma forma que a maioria das doenças crônicas como asma, diabetes ou hipertensão, o paciente deve se manter em tratamento e acompanhamento médico regulares.

Soropositivos indetectáveis e em tratamento constante não transmitem HIV, de acordo com o estudo Opposites Attract, divulgado na 9ª Conferência Internacional da Sociedade de Aids sobre Ciência do HIV, em Paris.
Soropositivos indetectáveis e em tratamento constante não transmitem HIV, de acordo com o estudo Opposites Attract, divulgado na 9ª Conferência Internacional da Sociedade de Aids sobre Ciência do HIV, em Paris.

Hoje, o esquema antirretroviral distribuído no Brasil desperta pouquíssimos ou nenhum efeito colateral em seus usuários, com grandes taxas de aceitação entre os pacientes. E há chances de que a incidência do vírus se torne um problema ainda menor no cotidiano do brasileiro: o Ministério da Saúde está introduzindo duas novas drogas em seu programa nacional de combate ao HIV/Aids até o final desse semestre.

O Dolutergravir, um dos medicamentos mais modernos do mundo para quem já tem o vírus, chega com um aporte de R$1 bilhão. Já o Truvada, aprovado em países como Estados Unidos, França, Peru e Canadá, entra no Sistema brasileiro como uma política de precaução.

“A melhor estratégia de prevenção é aquela que um indivíduo escolhe e consegue usar de maneira correta e constante. A PrEP (profilaxia pré-exposição, nome do programa de implementação do Truvada por aqui) vai servir como uma alternativa para milhares de pessoas que não conseguem ou não podem integrar o uso do preservativo aos seus contextos de vida”, conta Rico, que também é coordenador do programa PrEP Brasil.

"Essa epidemia é sim um assunto prioritário da população LGBT+. Negar isso só permite que mais pessoas contraiam o HIV", defende Rico Vasconcelos (Foto: Reprodução Facebook)
"Essa epidemia é sim um assunto prioritário da população LGBT+. Negar isso só permite que mais pessoas contraiam o HIV", defende Rico Vasconcelos (Foto: Reprodução Facebook)

Polêmico, o Truvada já é condenado por alguns antes mesmo de ser implementado.

O remédio é um comprimido que previne a contaminação pelo HIV. Como uma vacina, o corpo é preparado para que o vírus não consiga se instalar por já conter anticorpos prontos para defendê-lo. A diferença é que, no lugar de algumas doses, o paciente toma um comprimido por dia pelo tempo que desejar se manter protegido.

A distribuição no país está marcada para começar em dezembro para um grupo inicial de 7 mil pessoas e a um custo de quase R$6 milhões por ano.

Para Rico, entretanto, a desinformação não é necessariamente a raiz do problema quando se diz respeito ao combate à AIDS:

“Segundo pesquisas, 95% da população sabe que o vírus é transmitido através de relações sexuais desprotegidas. O problema é que as pessoas não conseguem aplicar os conhecimentos de prevenção às suas rotinas e contextos de vida”

– Rico Vasconcelos

O médico, que já fez os primeiros estudos do Truvada por aqui, acredita que parte do fracasso no controle de novos casos do HIV é a aplicação de uma única forma de prevenção: a camisinha.

“Com a multiplicação das estratégias de prevenção e a combinação entre elas, as pessoas podem encontrar um esquema eficaz que se encaixe à sua rotina sem prejudicar a qualidade de sua vida sexual”, comemora.

Mas, apesar de o tratamento atual também ser distribuído gratuitamente pelo SUS, dados mais recentes dão conta que 45% das pessoas infectadas pelo HIV no Brasil optam por não tomarem os antirretrovirais necessários para a inibição do vírus.

“Estigma, sorofobia e exclusão social, quando associados ao fantasma do HIV, podem paralisar uma pessoa que acaba de receber seu diagnóstico e desiste de enfrentar tanto a doença quanto o tratamento”, explica Rico.

ESTIGMA

Preconceito. Esse sim é o verdadeiro vilão.

Rafael conta que, quando assumiu sua soropositividade, sentiu o preconceito chegar de quem menos esperava.

“Ao contar da infecção para familiares e amigos, não percebi nenhum tipo de preconceito. E também fui favorecido com relação ao ambiente de trabalho, um dos lugares que mais recebo relatos de preconceito, principalmente por ser autônomo. Mas se teve um ambiente que mais senti despreparo e estigma foi com os profissionais de saúde. Olhares, comentários e uma falta de informação real por todas as partes. Um proctologista, por exemplo, disse depois que eu relatei ser soropositivo: ‘Ah, você é veado?!’”.

O caso se assemelha a outros milhares de relatos contados por vítimas de estupro, pedofilia ou até mesmo os próprios soropositivos: ainda são muitos os agente públicos sem treinamento capacitado ou tato humano para lidar com pacientes com doenças sexualmente transmissíveis.

Mas ainda que prevaleça ocasionalmente o conservadorismo secular do Brasil, a chegada do Truvada e as possibilidades que ela traz consigo devem ser celebradas aos montes. Principalmente num país onde os investimentos em Saúde ficam mais por um fio a cada dia que passa.

Dica da Híbrida: o documentário “Fogo nas Veias” (“Fire In The Blood”, Dylan Mohan Grey, 2012), disponível na Netflix, mostra como a indústria farmacêutica dos Estados Unidos matou milhares de pessoas na África pelas patentes dos coquetéis e como a luta de ativistas mudou isso até nos próprios EUA.

Documentário "Fogo nas Veias", disponível no Netflix, fala sobre como o monopólio da indústria farmacêutica causou milhões de mortes. Foto: divulgação.
Documentário "Fogo nas Veias", disponível no Netflix, fala sobre como o monopólio da indústria farmacêutica causou milhões de mortes. Foto: divulgação.

*(Nota: a Híbrida faz uma ressalva de que, mesmo que não ocorra mais a transmissão do HIV de um soropositivo indetectável para um soronegativo, outras DSTs podem ser transmitidas a partir de qualquer um dos lados. Previna-se e mantenha seus exames sempre em dia, quanto mais cedo essas doenças são diagnosticadas, menores são as consequências).

PATRICK MONTEIRO

PATRICK MONTEIRO

Jornalista apaixonado por contar histórias e crente que há bondade na humanidade. Adoro entrar em uma treta na internet quando o que falta ao outro é apenas informação real. Me Formei no Espírito Santo, mas me criei na profissão no Rio de Janeiro. Já trabalhei para o Vírgula, Purepeople, Quem Acontece, MTV Brasil e Cosmo. Troco likes, mas não sigo de volta ?