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18 out 2019

O DESBUNDE POLÍTICO DO RIVAL REBOLADO

POR JOÃO KER

E

m 20 de dezembro, às vésperas do Natal, o Teatro Rival abriu as portas para uma casa cheia e animada em uma noite de quarta-feira que consagraria a 3ª Rainha da Cinelândia através do concurso de drag queens Rival Rebolado”. Criado em setembro de 2016 por Leandra Leal, Alê Youssef e Luís Lobianco, o evento mistura uma versão contemporânea do teatro de revista com uma espécie de RuPaul’s Drag Race” ao vivo, onde a vencedora é eleita após “A Melhor de 4”, o lip synch final do show.

Isabel Chavarri durante sua performance burlesco-política no Rival Rebolado (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)
Isabel Chavarri durante sua performance burlesco-política no Rival Rebolado (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)

Em 2018, o Rival Rebolado, já em sua 3ª edição no Rio, reuniu as drags ao longo de nove meses para se apresentarem em espetáculos temáticos, que iam de “Show da Fé” e “Jogos de Inverno” a “Festa do Interior” e “Natal”.

Após uma bateria de performances, a faixa foi finalmente disputada por Miranda Lebrão, Frankie Monstro, Uhura Bqueer e Vincent Van Goth, o único drag king da rodada. Mas para além da competição, foi impossível ignorar o sentido e a importância do evento não apenas no panorama político do Rio e do Brasil, mas também na valorização e revitalização da cena queer na cidade.

Em tempos nos quais o próprio prefeito tem decidido de forma arbitrária o que é apropriado ou não, vetando exposições, bares, festas e blocos – incluindo os agitos do “Rivalzinho”, que ocupavam regularmente a calçada do Rival no horário pós-expediente -, celebrar a arte LGBT+ num teatro já histórico na resistência contra esse tipo de repressão não é apenas um entretenimento necessário, mas também um ato inevitavelmente político.

Éber Inácio, que também se apresenta no Buraco da Lacraia, na Lapa, durante a final do Rival Rebolado (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)
Éber Inácio, que também se apresenta no Buraco da Lacraia, na Lapa, durante a final do Rival Rebolado (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)

“De alguma forma, com o Rival Rebolado esse espaço volta a ter o teatro em sua programação, já que ficou muito tempo dedicado à música. E, principalmente, é um teatro de revista, com uma tradição muito crítica e de muita liberdade. Nós, com muito deboche, desbunde e sátira, vamos tratando temas delicados e que dizem muito sobre a nossa sociedade”, explica Fabiano de Freitas, responsável pela direção do espetáculo ao lado de Isabel Chavarri.

Ele conta que as edições mensais são feitas em clima colaborativo, onde todos os artistas contribuem com sugestões de números que gostariam de apresentar, além de investirem também na improvisação quando sobem ao palco.

É daí que surgem shows como o de Karina Karão interpretando a princesa Elsa, de “Frozen”; Leandra Leal reimaginando uma Carmen Miranda feminista ao som de “Ta-hí (Pra você gostar de mim)”; e o próprio Fabiano como uma versão fetichista de Ursinho Carinhoso.

Nós, com muito deboche, desbunde e sátira, vamos tratando temas delicados e que dizem muito sobre a nossa sociedade”

– Fabiano de Freitas

Leandra Leal em sua performance como uma Carmen Miranda reimaginada e empoderada (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)
Leandra Leal em sua performance como uma Carmen Miranda reimaginada e empoderada (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)

“Essa iniciativa é uma tentativa de resgate de uma tradição que também é do Rival, dando espaço para as artes da noite. Essa foi uma das primeiras casas que sempre abrigou esses artistas, em um período mais sombrio do que hoje, quando surgiram nomes como Rogéria, Jane di Castro e toda aquela geração que formou as Divinas Divas durante a Ditadura Militar”, explica Fabiano.

Após o espetáculo, ele completa pensativo na coxia: “Agora, eu não sei dizer se é coincidência ou não o fato de termos voltado a fazer isso em um momento no qual vivemos algo tão confuso, duvidoso e sombrio novamente”.

FOTO: ROBERTA CLAPP

O REVIVAL DO RIVAL

É seguro afirmar que não haveria Rival Rebolado, pelo menos não nos moldes atuais, se não fosse por Américo Leal.

O produtor cultural inaugurou o espaço em 1934 e já na década de 1960, durante o auge da Ditadura Militar e após o declínio do teatro de revista em favor do teatro rebolado, colocou no palco o primeiro show de travestis da região, estrelado por nome como Jane di Castro, Marquesa, Brigite de Búzios, Divina Valéria, Eloína dos Leopardos, Camille K, Fujika Halliday e Rogéria.

Negócio de família: Américo Leal, fundador do Teatro Rival, ao lado de Ânegla Leal segurando uma Leandra Leal ainda bebê (Foto: Reprodução)
Negócio de família: Américo Leal, fundador do Teatro Rival, ao lado de Ânegla Leal segurando uma Leandra Leal ainda bebê (Foto: Reprodução)

Enquanto os outros teatros recebiam nomes como Oscarito, Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Carmen Miranda e até Josephine Baker, a primeira atriz desse gênero a se apresentar no país foi Ivaná, alterego do ator Ivan Monteiro Damião nos anos 1950 e pérola dos palcos descoberta por Walter Pinto.

Se a presença de Ivaná sozinha já criava rebuliço entre as mulheres e atrizes da época, é possível imaginar o que uma trupe como a citada acima não representava para os costumes da época, mesmo que alguns anos depois.

"Se veste de mulher, parece mulher, mas é homem", diziam as manchetes dos anos 1950 sobre Ivaná (Foto: Reprodução)
"Se veste de mulher, parece mulher, mas é homem", diziam as manchetes dos anos 1950 sobre Ivaná (Foto: Reprodução)

Eis que vieram os anos 1990 e, com eles, a administração de Ângela Leal, mãe de Leandra e filha de Américo.

Marcando a programação do Rival com o suprassumo da nova geração da MPB, a atriz recebeu naquele palco nomes como Cássia Eller, Chico César, Zeca Pagodinho, Elza Soares e Adriana Calcanhotto, a maioria deles ainda no início de suas carreiras. Apesar do fim da Ditadura e do teatro rebolado, a transgressão através das artes continuava a pulsar na Cinelândia.

E então, em 2016, Leandra assume oficialmente a administração do negócio que, com ela, chegava à 3ª geração de sua família. A partir daí, a atriz uniu-se ao marido e jornalista, Alê Youssef, ao empresário Pedro Henrique Trajano e às chefs Bianca e Kátia Barbosa (do Aconchego Carioca) com uma missão: dar um novo ar à programação do Rival e trazer seus 82 anos de história para os dias de hoje.

Em 2016, Leandra Leal assumiu o comando do Teatro Rival (Foto: Reprodução)
Em 2016, Leandra Leal assumiu o comando do Teatro Rival (Foto: Reprodução)

“Tudo partiu de um desejo da Leandra com o Alê de voltar com o teatro à programação. Eles convidaram o Luís Lobianco, que formou esse coletivão e, com a Isabel, começamos a pensar em qual seria o formato que teríamos aqui. A Isabel tem uma pesquisa muito grande no burlesco, enquanto eu sou muito ligado ao teatro de gênero. Então, juntamos isso tudo e entendemos como seria o nosso teatro de revista, que é uma visão contemporânea olhando para o mundo”, conta Fabiano sobre o nascimento do Rival Rebolado.

A própria Leandra sempre esteve ciente do histórico de resistência e incentivo à cena queer que o Rival carregava em seu palco. Tanto que, em 2008, ela já dava os passos iniciais na produção de “Divinas Divas” (2016), o documentário que marcou sua estreia na direção e eternizou na sétima arte a geração de performers que, de várias formas, abriram o caminho para as drag queens que se apresentam hoje no Rival Rebolado.

Fabiano, Leandra e Éber durante a performance de "Ta-Hí" (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)
Fabiano, Leandra e Éber durante a performance de "Ta-Hí" (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)

“Eu acabei de falar com a Leandra o quanto é coerente com a história dela, do Teatro e do [“Divinas Divas”] esse espetáculo”, vibra Camila Pitanga na coxia do teatro.

Ela assistia pela primeira vez ao Rival Rebolado e depois de se render às piadas e gargalhadas – inclusive cedendo ao pedido/intimação de Karina para que a atriz a seguisse no Instagram -, comentou: “Eu tenho certeza que estava em uma noite muito especial e mágica, com um viés político muito forte. É como se isso fosse uma continuação de tudo, de uma história muito anterior à da Leandra e de um legado que ela está fortalecendo. Cada número teve um humor e um colorido diferente, eu consegui rir de me acabar!”.  

Camila Pitanga se diverte com as Rainhas da Cinelândia, Miranda Lebrão e Veluma (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)
Camila Pitanga se diverte com as Rainhas da Cinelândia, Miranda Lebrão e Veluma (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)

FOTO: ROBERTA CLAPP

REBOLADO POLÍTICO

O espetáculo do qual Camila participou acabou coroando Miranda Lebrão como a 3ª Rainha da Cinelândia, mas não antes de muito close e, literalmente, bateção de cabelo.

Um dos pontos altos da noite veio quando Karina deixou o posto de apresentadora da noite e performou acompanhada de Ravena Creole e de Miami Pink, representantes do “Drag-Se” e do “Queens”, dois agentes também vitais para a cena drag carioca. Ao som de “Bang Bang”, as meninas desceram até o público e não houve peruca que ficasse intacta depois da performance.

Em outro momento, Isabel Chavarri subiu ao palco para uma apresentação burlesca na qual rasgava as fotos de Sérgio Moro e de Marcelo Crivella com seu corpo seminu. Mais tarde, as Misses Simpatia Ma.Ma. Horn e A Dita engrossaram a produção musical e lançaram seu novo single original, “Se Monta”. E isso sem falar na emoção de quando o elenco começou a dançar “Mulamba” e a chamar inúmeras mulheres da plateia, de todas as idades mesmo, para se divertirem no palco e dançarem juntas.

Miranda Lebrão coroada a 3ª Rainha da Cinelândia (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)
Miranda Lebrão coroada a 3ª Rainha da Cinelândia (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)

Karina, que no início do Rival Rebolado também assistia ao espetáculo como mera observadora, conta como fez a transição de público para parte fixa e essencial do elenco. “Na quinta semana que vim aqui, vi a Leandra se maquiando e me ofereci para ajuda-la. Ela deixou e, na próxima semana, já a ajudei com a montação. Aos poucos, fui participando da produção, fazendo a maquiagem do [Luís] Lobianco, o cabelo da Leandra etc. Quando a Letícia Guimarães saiu do elenco, eles me convidaram e eu abracei o projeto, que já amava”.

Nascida em Recife (mas se perguntarem, ela é italiana), Karina faz drag há 10 anos na capital carioca, quando foi “amadrinhada” por Suzy Brasil e Rose Bombom, ícones da cena queer carioca desde a década de 1980. Sua bagagem se apresentando pela noite faz com que ela veja a importância do concurso com outros olhos.

Karina Karão: diva da comédia, ela comanda a apresentação do Rival Rebolado ao lado de Leandra Leal (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)
Karina Karão: diva da comédia, ela comanda a apresentação do Rival Rebolado ao lado de Leandra Leal (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)

“É maravilhoso! Principalmente porque a gente vê que as boates do Rio de Janeiro estão acabando e o espaço [para essas artistas] vai ficando pequeno. Por isso que, inclusive, tivemos o momento de juntar o Rebolado com o Queens e o Drag-se”, conta Karina, que inclusive esteve na edição manauara do evento, que consagrou Uýra Sodoma como a Rainha daquela região (leia aqui nossa entrevista exclusiva com Uýra).

Da esq. para a dir.: Veluma, Miranda Lebrão, Uhura Bqueer, A Dita, Ma.ma. Horn, Vincent Van Goth e Frankie Monstro (abaixado) (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)

DE DIA É

MARINHEIRO,

DE NOITE É

MIRANDA

LEBRÃO

No Rio, Miranda suou o collant em uma final acirradíssima para levar a faixa de Rainha. Durante seu último lip synch com Uhura, ao som de “Corpo Sensual”, a drag queen fez uma troca dramática de looks para revelar por baixo do vestido e da cauda de pavão um biquíni de fita isolante à la Anitta. Isso na mesma semana em que o clipe de “Vai Malandra” tinha sido lançado. Ou seja, a reação geral foi de dedo pro alto e gritaria, como era de se esperar.  

“Ganhar esse prêmio é a recompensa pelo trabalho de criação, comprometimento e elaboração em cada detalhe – pra ter sempre um truque na manga”, comenta para a Híbrida, logo após sair do palco. Ainda tremendo de emoção, ela conta que passou os meses pensando em suas performances e que, não coincidentemente, o local de sua primeira apresentação como drag foi ali, no palco do Rival.

Um dos truques que Miranda guarda na manga, por sinal, é a profissão que exerce durante o dia como boy: oficial da Marinha. 

E ela garante, nunca passou por nenhum constrangimento por conta de sua personagem. Muito pelo contrário, ela frisa, já que alguns de seus amigos inclusive estavam na plateia torcendo pela vitória de Miranda. “Nunca tive problema algum com ninguém, por ser gay ou por ser drag”, ela conta, desmistificando o tabu.

Miranda Lebrão faz os ajustes finais na montação antes de subir ao palco do Teatro Rival para disputar a faixa de Rainha da Cinelândia (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)
Miranda Lebrão faz os ajustes finais na montação antes de subir ao palco do Teatro Rival para disputar a faixa de Rainha da Cinelândia (Foto: Roberta Clapp | Revista Híbrida)

Seu nome de drag vem de uma mistura entre o filme “O Diabo veste Prada” e uma adaptação abrasileirada do Leblon, bairro nobre carioca. Mas o nascimento de Miranda Lebrão foi um pouco anterior ao seu nome e aconteceu de forma mais inusitada. “Não foi uma decisão consciente. Começou tudo com a porra do glitter!”, ela brinca, aos risos. “Quando eu vi, tava indo pras festas montado e, ao mesmo tempo, odiando a maquiagem que eu fazia. Comecei a estudar pra tentar melhorar um pouco. Então, obviamente, quis aparecer e através dos amigos que conquistei fui trabalhando em festas. Para mim, ser drag é isso: brincar com as feminilidades dentro da nossa masculinidade”, enfatiza.

Para mim, ser drag é isso: brincar com as feminilidades dentro da nossa masculinidade

– Miranda Lebrão

Para 2018, o plano é que Miranda ajude a escolher a próxima Rainha da Cinelândia e que o concurso contemple outras capitais pelo país afora. E em um ano cuja única certeza é o desgaste emocional de viver uma Copa do Mundo seguida por eleições presidenciais, ter ao menos uma noite do mês para rir da bagunça que se tornou o Brasil e celebrar a cena queer é um alívio tão bem vindo quanto necessário.

Foto: Roberta Clapp
Foto: Roberta Clapp

João Ker

JOÃO KER

Mineiro de nascença e carioca de alma, João é formado em jornalismo pela UFRJ e já passou pelas redações do Canal Futura, Site Heloisa Tolipan, Sony e Yahoo antes de realizar seu sonho com a Híbrida. Hoje, se divide entre a revista e o mundo publicitário na Pixelfordinner.

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