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17 nov 2018

O GRITO COLETIVO DO QUEBRADA QUEER

O PRIMEIRO CYPHER FORMADO POR LGBTS NO BRASIL FALA SOBRE ATIVISMO E REPRESENTATIVIDADE ATRAVÉS DO RAP

Quantas cores do arco-íris existem no rap brasileiro?

Murillo Zyess (22), Guigo (26), Lucas Boombeat (24), Harlley (20), Tchelo Gomez (26) e Apuke (26), todas homossexuais e das periferias da grande São Paulo, se uniram no coletivo Quebrada Queer e produziram “a primeira cypher gay do Brasil e da América Latina” para mostrar que são muitas.

O vídeo da primeira música, publicado no YouTube, conseguiu 793 mil visualizações em apenas duas semanas do upload na plataforma, gerando dezenas de vídeos “reaction” de outros criadores de conteúdo, além dos milhares de compartilhamentos nas redes sociais. O segundo single, “Pra Quem Duvidou”, foi lançado no dia 31 de agosto, quando também foi disponibilizado em todas as plataformas digitais e rapidamente ganhou a aprovação dos fãs.

O grupo surgiu a partir da ideia conjunta de criar uma cypher, nome dado a uma reunião de MCs de grupos ou solos para rimas inéditas, exclusivamente com rappers LGBTs. E, mesmo que todos os integrantes já tivessem carreiras anteriores, com mais ou menos tempo de trabalho na indústria, o impacto alcançado logo de início através do Quebrada Queer fez com que percebessem como suas vozes unidas eram mais potentes. Foi aí que se entenderam como um coletivo, algo muito maior do que um time de seis integrantes: “o Quebrada Queer somos nós, mas também são as pessoas que se sentem representadas pelo nosso trabalho”, afirma Harlley.

FOTO: REPRODUÇÃO

Uma dessas pessoas é Kelvin Martins, que trabalha como técnico de informática e cabelereiro em Registro, no interior de São Paulo. Fã da cypher, o jovem de 24 anos tatuou o nome do coletivo Quebrada Queer na nuca: “Quando ouvi pela primeira vez, foi muito impactante. Fiquei arrepiado pelo fato de perceber que aquilo tinha a ver com minha vivência”.

O sentimento de ser diferente dos outros desde pequeno foi uma das motivações para a tatuagem.

“Cada palavra da música tem uma importância grandiosa e, conforme fui ouvindo, percebi que aquilo era algo que eu queria carregar comigo e que faz o que eu realmente sou”.

Kelvin Martins, fã do Quebrada Queer que tatuou a banda na nuca.
"Kelvin Martins, fã do Quebrada Queer que tatuou a banda na nuca.

Para Murillo Zyess, é uma honra representar a história de tantas LGBTs pretas e faveladas. “A maioria de nós do Quebrada Queer, talvez todos, não teve referências na infância e na adolescência. E agora ser essa referência, ser esse exemplo para vários tipos de pessoas é muito gratificante”, afirma. E completa: “Saber que minha arte agregou na vida de alguém, que empoderou e encorajou alguém, me deixa realizado!”.

Segundo Apuke, DJ e produtora musical oficial do coletivo, a causa para tanta receptividade positiva é a forma como o grupo promove representatividade através de um espectro tão diverso, em um espaço musical ainda conservador, especialmente no cenário brasileiro: “Entendemos que essas pessoas se sentiram bem representadas e levaram nosso trabalho adiante, atingindo a cada dia um público maior. Vemos isso de uma forma muito boa, pois abriu uma porta para que a família LGBTQ, com sua força, possa ser ouvida através das nossas músicas”.

O grupo fala com a Revista Híbrida sobre o início dessa trajetória, a importância da representatividade LGBT no rap, uma vertente musical conhecida historicamente por sua homofobia, e os planos para o futuro. Leia:

Foto: Divulgação

PLURALIDADE

 O que representa um grupo queer estar fazendo Cypher? 

Lucas Boombeat: Representa a diversidade dentro do rap e a pluralidade dentro da nossa vivência como bichas, porque são várias vozes que trazem suas cargas individuais e que, mesmo assim, cruzam a vida um do outro, mostrando o quanto ainda temos para falar. E há muito tempo já existem cyphers, mas nunca vimos uma apenas com bichas, então essa é uma forma de ocupar um espaço que também é nosso e mostrar para outros LGBTS que todos podemos fazer, independente de abrirem espaço para a gente ou não.

 Quais as referências musicais e estéticas de vocês?

Lucas Boombeat: Temos muitas referências musicais e estéticas, que variam por diversos estilos. Mas ultimamente, nossas maiores influências estão sendo nós mesmos. Somos fãs um do trabalho do outro e, com o grupo, essa conexão acabou se tornando mais forte musicalmente.

Acreditamos no poder da arte como uma das maiores ferramentas de mudança na sociedade

– Lucas Boombeat

 E de que forma a música pode ser uma libertação para corpos marginalizados? 

Lucas Boombeat: Muita gente não se desconstrói de seus preconceitos através do diálogo no dia a dia e já tivemos relatos de várias pessoas que chegaram até nós dizendo o quão isso foi libertador para elas, a partir do momento que escutaram nossa música. Nós também somos fruto de outros artistas que vieram antes da gente e que, com sua representatividade, nos encorajaram e nos mostraram que é possível expressar nossa arte, independente dos preconceitos.

Registro do primeiro show do coletivo Quebrada Queer no Largo do Arouche, em São Paulo. Foto: @Henrique Lambiazi
Registro do primeiro show do coletivo Quebrada Queer no Largo do Arouche, em São Paulo. Foto: @Henrique Lambiazi

De que forma o Quebrada Queer constrói essa representatividade? Como e em quem vocês buscaram representatividade ao longo da vida?

Apuke: Construímos representatividade falando sobre a luta diária contra homofobia, questões sociais e de minorias. Levamos nas nossas músicas vivências que também são as vivências de muitas pessoas em nosso país. Buscamos representatividade em pessoas que lutam pelos mesmos ideais, pessoas que nos dão forças para acreditar em nossos sonhos e que saíram de situações como a nossa, enfrentando grandes barreiras para provar que você pode ser quem você quiser.

Cada um do grupo tem seu “ídolo” em particular, nomes do jazz ao pop, figuras fortes, de imensa representatividade que nos ensinam diariamente com sua arte a chegar onde estamos hoje.

 Quais os maiores desafios de entrar no Rap? É difícil pra todos que estão começando ou ser um grupo queer torna especialmente difícil?

Tchelo Gomez: Acreditamos que é difícil para todos que estão começando, principalmente na música independente.

Por sermos queer, [esse processo] torna-se ainda mais difícil sim. Primeiro, porque não é comum e, quando apareceram representantes na cena, eles automaticamente foram redirecionados ou classificados/categorizados como pop, talvez por trazerem alguns elementos musicais diferentes ou simplesmente por fazerem parte de um cenário queer que, querendo ou não, está sendo atualizado e cada vez mais moderno, onde trazemos gírias e linguagens próprias, além da já mencionada junção de novos elementos.

Apesar de uma boa aceitação, ainda existem os conservadores que não aceitam de jeito nenhum o simples fato de que há pessoas LGBTQ+ fazendo rap. Na real, essa reação não faz o menor sentido, sendo que o rap é um gênero que dá voz às minorias expressando suas vivências. Foi exatamente o que fizemos e para quem fizemos.

  Onde vocês esperam chegar com a música de vocês?

Tchelo Gomez: Esperamos chegar até os ouvidos dos preconceituosos, a ponto de que consigam entender que resistimos e existimos, para que possamos quebrar as muralhas da LGBTfobia.

Além disso, queremos também chegar aos corações daqueles que se identificam com nossas histórias, que passaram e passam por situações nada fáceis no nosso país, seja dentro de casa, na escola, na rua ou na sociedade, e mostrar pra elas que está tudo bem ser quem são. Falando de espaços, esperamos ocupar cada vez mais os espaços predominantemente héteros, a fim de mostrar que somos todos iguais e temos todos os mesmos direitos.

Registro do primeiro show do coletivo Quebrada Queer no Largo do Arouche, em São Paulo. Foto: @Henrique Lambiazi
Registro do primeiro show do coletivo Quebrada Queer no Largo do Arouche, em São Paulo. Foto: @Henrique Lambiazi

Quebrada Queer foi um dos indicados à categoria Experimente do Prêmio Multishow. As votações acontecem online e você pode votar aqui .

Além disso, o coletivo se organiza pela fanpage, onde contam novidades de trabalho e datas de apresentações.

Luiz Guilherme Osorio

VICTOR SORIANO

Victor é graduando do curso de jornalismo da ECO/UFRJ. É analista de inteligência digital e pesquisa corpo e arte. Trabalhou como gerente de branding, repórter e ilustrador de iniciativas como Revista Apuro e Portal Overdose e foi social media da websérie “Drag-se”.

 

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