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22 ago 2019

Johnny Hooker

por JOÃO KER

Os últimos dois anos criaram uma avalanche na vida de Johnny Hooker e o catapultaram para um hall que poucos artistas LGBTs no país alcançaram até hoje. Encerrando o ciclo de divulgação do seu segundo álbum, “Coração”, o recifense de 31 anos está rodando sua turnê uma segunda vez pela Europa, depois de lotar espaços pelo Brasil adentro. Agora, ele está se preparando para, em breve, iniciar uma nova fase da carreira, enquanto fala exclusivamente à Revista Híbrida sobre o primeiro single do seu próximo disco.

Johnny Hooker

Johnny Hooker veste camisa Another Place; calça À La Garçonne para Vicunha; acessórios acervo Divina Raio-Laser

Nascido John Donovan, na capital de Pernambuco, Johnny Hooker está na estrada há pelo menos 15 anos, quando lançou seu primeiro EP, “The Blink of The Whore’s Pussy”, ainda na adolescência. De lá pra cá, pouco restou da sonoridade glam rock que ele fazia, mas o delineador preto e a androginia de seus figurinos ainda é uma marca registada.  

“Para mim, a reinvenção é uma chave. Eu acho esse conceito do renascimento muito interessante, o de matar o seu passado para ser o que você precisa ser”, explica durante a entrevista. Essa transformação pôde ser sentida logo de cara em “Coração” que, apesar de trazer algumas das mesmas sonoridades presentes em seu disco de estreia, “Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, Maldito!”, ainda levou o artista a explorar novos caminhos em seu trabalho.

“Foi um presente”, Johnny comenta sobre o disco e sua repercussão. “Quando fiz o primeiro, percebi que meu público era muito jovem e LGBT, com um discurso político forte. Entendi que eu precisava estender a mão para eles e incorporar isso na música e nos shows”, observa. 

“Coração” veio em um momento tumultuado tanto na vida de Johnny Hooker, que passava por um término complicado, quanto na dos brasileiros, de forma mais geral. Essas tensões tingiram o tema do disco e sua mensagem ora de força, ora de vulnerabilidade. “Ele fala mais sobre os afetos, desejos, perda, luto e até depressão – obviamente, com um subtexto político por ter a questão LGBT, a música brasileira e falar de Recife”, explica o cantor.

A pressão, ele garante, veio mais de si mesmo do que do mundo exterior. “Eu tive uma fase grave de depressão e exaustão. Depois de fazer arte por 10 anos, as coisas finalmente começaram a dar certo. Então, fiquei com medo. ‘Será que eu fiz suficiente?’”, desabafa.

De fato, seguir o estouro que foi “Macumba” era tarefa difícil. Além de ter lhe catapultado ao posto de artista com apelo nacional, o disco não era sucesso só de público, mas também foi aclamado pela crítica, lhe rendendo inclusive o troféu de Melhor Cantor no 26º Prêmio da Música Brasileiro, o mais próximo que nós temos de um Grammy nacional.

Mas repetir-se não faz parte do arsenal de Johnny como artista e, ao lançar “Coração”, a resposta que recebeu dos fãs, novos e antigos, excedeu qualquer expectativa: “Eu joguei aquele grito de vida e resistência pro mundo e essa força, esse amor voltaram pra mim com outra potência”. 

“Percebi que meu público era muito jovem e LGBT, com um discurso político forte. Entendi que eu precisava estender a mão para eles”

Johnny Hooker

Johnny Hooker veste camisa Another Place; calça À La Garçonne para Vicunha; acessórios acervo Divina Raio-Laser

Johnny Hooker é fã incontrolável de Madonna. Na verdade, ele já disse inúmeras vezes que considera a Rainha do Pop sua “mainha’, enquanto David Bowie é “painho” e Caetano Veloso o “Espírito Santo”, formando assim a Santíssima Trindade de suas influências artísticas, de Londres a Salvador. 

Nos bastidores das fotos que acompanham essa matéria, Madonna é pauta recorrente entre quem está pelo Clube da Empatia, em Santa Cecília. As músicas de seu último disco, “Madame X”, são tocadas em loop e preparam o clima para a sessão. Entre trocas de figurino e de maquiagem, Johnny comenta sobre sua expectativa para o lançamento, ao mesmo tempo em que se diz ansioso para ver a cinebiografia de Elton John. Dias depois, ele comemora em suas redes a felicidade de estar ouvindo o 19º disco de “mainha”.

De uma forma ou de outra, é inevitável que todas essas inspirações acabem transparecendo no trabalho de Johnny. O mais surpreendente, contudo, é que elas saem de um liquidificador criativo que ainda mistura todas as raízes nordestinas do artista e dão vida a um produto que tem a sua cara, sua estética e, em um momento onde o pop brasileiro tenta se aproximar do que é feito nos EUA ou nos países vizinhos da América Latina, soa completamente único.

Há pelo menos cinco anos, Johnny tem conseguido emplacar seu nome em trilhas sonoras de algumas das maiores novelas da Globo. Esse ano, sua voz também aparece na terceira temporada de ”3%”, a primeira e maior série brasileira produzida pela Netflix, disponível em 190 países. 

E isso porque, além de traduzir a forma mais pura das emoções humanas nas próprias músicas, Johnny também consegue transportar essa honestidade quando interpreta outras canções em sua voz, seja cantando Chico Buarque (“Bom Conselho”), Adriana Calcanhotto (“Mentiras”) ou Timbalada (“Beija-flor”). E foi com essa mesma emoção que ele conseguiu transformar “Flutua” no sucesso inegável que a música se tornou.

Eis que, enquanto o país pegava fogo após o impeachment de Dilma Rousseff e sob a presidência de Michel Temer, surge essa parceria quase inevitável entre Johnny e Liniker. Com arranjo grandioso e vocais mais ainda, a música ganhou um videoclipe estrelado por Jesuíta Barbosa e Maurício Destri como um casal gay agredido no centro de São Paulo, que também é o Estado com maior número de crimes cometidos contra LGBTs, de acordo com relatório do Grupo Gay da Bahia.

Não demorou muito para que “Flutua” fosse alçada ao posto de hino da resistência LGBT, e não só como a gíria que usamos hoje para comemorar qualquer lançamento que nos agrade. Com versos como “Amar sem temer”, a música se espalhou por faixas e cartazes de manifestações em todo o Brasil, foi tema de casamentos homoafetivos, venceu prêmio da MTV, estourou a marca de milhões nas plataformas de streaming e foi para no Rock In Rio, com direito a beijo no palco.

“Para mim, foi importante ter momentos como o show do Rock In Rio e o beijo com a Liniker, ali no maior festival do mundo, com aquela mensagem”, lembra Johnny sobre a trajetória da música. “Foi uma maneira de as pessoas entenderem que não estavam sozinhas, como um acolhimento.”

Johnny Hooker Híbrida

Johnny Hooker veste acessórios acervo Divina Raio-Laser e vestido de espelhos acervo Paulo Victhor

O Brasil de 2019 é uma terra paradoxal para quem é (e se banca como) artista LGBT. Como entender um país que é campeão do mundo em assassinatos dessa comunidade e, ao mesmo tempo, garante o recorde de público numa Parada do Orgulho? O cenário é tão arriscado quanto intimidador para assumir tanto uma posição quanto uma existência política. E, mesmo que estejamos passando por uma era de renascimento da cultura queer brasileira, não é difícil encontrar quem ache mais seguro e rentável permanecer no silêncio.  

Mas esse não é o caso de Johnny Hooker. Sim, suas músicas conseguem transbordar os limites da comunidade e alcançarem qualquer pessoa que esteja de coração aberto para ser atingido por elas. Isso não o impede, entretanto, de incluir símbolos, narrativas, representações e parcerias LGBTs em praticamente tudo o que toca.  

“As pessoas sabem que meu show é um local de acolhimento e liberdade. [Com a turnê de ‘Coração’] eu me senti parte de um movimento, uma unidade, uma resistência – e, por mais que possa parecer clichê, é isso. Nós estamos vivos no país que mais mata LGBTs no mundo, unidos pelo poder da música e da arte, e ninguém pode tirar isso da gente”.

E, por mais difícil que possa parecer às vezes, em tempos nos quais a desinformação reina e o próprio Johnny foi alvo das fake news produzidas pelo conservadorismo da extrema-direita, engana-se quem acha que ele vai diminuir o tom ou parar por aqui: “No Brasil, existe uma cultura que acha política chata e não é bem visto você se posicionar. Quando você é um artista e uma pessoa pública, tudo o que você faz é um ato político, né?”.

Johnny Hooker

Johnny Hooker usa vestido de espelhos acervo Paulo Vichtor,  saia godê Ocksa e acessórios acervo Divina Raio-Laser

Ao contrário da realidade enfrentada pela grande maioria de LGBTs, o pequeno John Donovan cresceu em um lar onde sua homossexualidade dificilmente seria um problema. Filho de dois artistas, ele conta que desde a infância conviveu com pessoas gays, muitos deles amigos de sua mãe.

Johnny Hooker

Johnny Hooker usa vestido de espelhos acervo Paulo Vichtor,  saia godê Ocksa e acessórios acervo Divina Raio-Laser

“Eu tive uma infância muito privilegiada nesse sentido, então convivi com uma gama de pessoas muito diversas, desde pequeno. Eu tive uma noção e uma neutralização dessa realidade muito cedo. Inclusive, vivenciei e experienciei coisas que muitas crianças da minha idade não viveram. Eu lembro de as pessoas chegando na minha casa doentes, magras e morrendo a cada semana por causa do HIV”, recorda. 

Talvez tenha sido essa mesma neutralização de John, com identidades de gênero e orientações sexuais que não a heteronormativa, uma das grandes responsáveis por moldar o tipo de artista e ativista que Johnny é hoje. Ver os amigos gays de sua mãe morrerem pelas mãos de pessoas homofóbicas ou por uma doença que era propositalmente ignorada nas políticas públicas fez com que nascesse ali um senso da responsabilidade de sua arte.

“Ter crescido com essa noção, de alguma maneira, me tornou uma criança meio politizada naquele momento. Ao mesmo tempo, reconheço que não poderia ter vivido algo mais díspar do que é o Brasil”, observa, notando que sua própria autoaceitação como bicha foi extremamente natural. “Eu acho que sempre soube.” 

A única dúvida, ele conta, surgiu aos 15 anos, quando se apaixonou por uma menina, mesmo sendo gay. “Quando eu conto isso, as pessoas falam ‘Ah, você está invisibilizando a causa bissexual’. Mas não dá para as pessoas dizerem o que você é, quem tem de saber disso é você. Não é como se eu estivesse dizendo que uma pessoa bissexual não existe, não é assim. Estou dizendo quem eu sou e como me sinto”, explica.

Johnny Hooker Híbrida

Johnny Hooker veste casaco de plumas acervo Paulo Victhor e acessórios acervo Divina Raio-Laser

Hoje, em 2019, felizmente temos mais crianças vivendo a infância que Johnny experimentou nos anos 1980 do que antes. E, para grande parte dessa geração que já cresce sabendo a diferença entre uma drag queen e uma pessoa transexual, por exemplo, o artista é não só um ídolo, mas também uma influência. Uma que, diga-se de passagem, ganhou em maio de 2018, durante o Dia Internacional contra a LGBTfobia, o título de Campeão da Igualdade, pela Organização das Nações Unidas (ONU). 

“É uma responsabilidade imensa, e é algo que ninguém te ensina como faz”, observa Johnny sobre ter chegado a esse posto, em particular. “Eu espero que, da minha parte, eu nunca perca a noção da minha responsabilidade como artista LGBT. Porque tem gente que se acomoda e acaba esquecendo que a luta pela democracia e por direitos é todo dia. Precisamos nos movimentar sempre sabendo que a luta não tem fim. Principalmente, as próximas gerações.”

Johnny Hooker

Johnny Hooker veste casaco de plumas acervo Paulo Victhor, calça de paetês Kengá e acessórios acervo Divina Raio-Laser

Em 2019, Johnny está se preparando para o lançamento de um novo single autoral, que irá abrir os trabalhos de divulgação do seu terceiro disco de estúdio. E, como ele mesmo disse aqui acima, não esperem uma repetição do que vocês já ouviram Johnny Hooker. “Eu tenho escutado muito coisas brasileiras que ainda não fiz”, adianta.

Johnny Hooker

Johnny Hooker veste casaco de plumas acervo Paulo Victhor, calça de paetês Kengá e acessórios acervo Divina Raio-Laser

Johnny Hooker

Johnny Hooker veste casaco de plumas acervo Paulo Victhor, calça de paetês Kengá e acessórios acervo Divina Raio-Laser

“Os primeiros discos têm axé, brega, frevo, samba, mas eu diria que, nessa próxima fase, eu vou experimentar coisas inéditas para mim, mas que estão dentro da gama brasileira. Estilos que, às vezes, estão na minha raiz pernambucana e, às vezes, vão em outras misturas de som”, ele conta, observando que uma das influências será também a sua mudança para São Paulo, onde ele tem vivido nos últimos três anos.

“A cidade tem me inspirado muito, ela tem uma energia muito intensa. A dinâmica das relações – da maneira como você se relaciona amorosamente, afetivamente, sexualmente, com os seus amigos… Toda relação com a cidade que você mora é completa, da amizade ao sexo. Essa energia intensa de São Paulo, da noite, dessa coisa um pouco mais cinza e metropolitana vai estar muito impressa no disco”, observa Johnny, sobre sua experiência na maior megalópole da América Latina. 

Johnny Hooker

Johnny Hooker

Johnny Hooker

Johnny Hooker veste calça Cacete Company, cropped off-white Ocksa, jaqueta acervo Paulo Victhor, tênis Converse e acessórios acervo Divina Raio-Laser

O novo single, ele revela com exclusividade e em primeira mão à Revista Híbrida, chama-se “Escolheu a pessoa errada para humilhar”, um trunfo de vitória e regozijo que traz de volta o deboche e a amargura de “Maldito”. “É uma volta à coisa da sofrência, mais presente no primeiro disco, com um pouquinho de vingança e escapismo. Vai ser mais dark que o ‘Coração’, como uma volta às origens. Ela vai virar gótica de novo!”, brinca, acrescendo que “nem só de política viverá o homem”. “Nesse momento pesado, a gente precisa se divertir.” E como precisa.  

Johnny Hooker

Johnny Hooker veste macacão de lurex Kengá e acessórios acervo Divina Raio-Laser

Assista abaixo ao clipe de “Escolheu a pessoa errada para humilhar”:

Styling/Produção: João Ker
Direção Criativa: Bernardo Remus
Fotos: Murilo Yamanaka
Maquiagem: Liv Tavares
Acervo: Paulo Victhor e Divina Raio-Laser
Assistência de Produção: Yheuriet Kalil

JOÃO KER

Mineiro de nascença e carioca de alma, João é formado em jornalismo pela UFRJ e já passou por empresas como Canal Futura, Jornal do Brasil, Sony, Yahoo e The Intercept, antes de lançar a Híbrida. É também repórter do jornal O Estado de S. Paulo.

 

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