Na coluna Playlist de março de 2025, Fabiano Moreira* comenta os principais lançamentos musicais de artistas LGBTQIA+ desse pré-carnaval. A leva de novidades inclui os álbuns de Lady Gaga, Melly, e uma coletânea do selo Caquí; além dos singles de Sevdaliza com as Irmãs de Pau, Bob the Drag Queen, Utopixxxta com Boss in Drama, Ventura Profana, Josyara, Malka Julieta com Deize Tigrona e Ana Gabriela.
Abaixo, confira a seleção. E não deixe de seguir também a nossa playlist para não perder os próximos lançamentos.
Lady Gaga – “Mayhem”
Nunca os little monsters esperaram tanto um lançamento quanto o de Mayhem, aguardando a volta da Lady Gaga do Velho Testamento que servia looks absurdos e não fazia belos lançamentos de jazz (que eu amo). Acabou que o sétimo álbum de estúdio da queen não é tão dark e sombrio como prometido nos singles “Abracadabra”, que mostra uma batalha de dança visualmente impressionante entre a luz e a escuridão da artista; e “Disease”, uma batalha de lados bruxa da queen.
Apesar de ter servido doses das sonoridades sofisticadas inspiradas em Prince e David Bowie em grandes faixas, como “Killah”, “Zombieboy” e “Vanish into you”, o álbum esfria, do meio ao final, sem deixar de ser um grande volume, do tamanho de sua criadora, ganhadora de 14 prêmios Grammy. Mas é que nós, little monsters, esperávamos tanto. Guardaremos para sempre, em nossos corações, as apresentações históricas, ao vivo, de “Killah” e “Abracadabra” no Saturday Night Live. E a mãe tá vindo aí, em um histórico show gratuito na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 3 de maio, o Gagacabana, que está recheado de festas temáticas ao redor, como a VDV Marry the Night 2025 e a paulistana Novo Affair Monster Club, no dia 2.
Melly – “Amaríssima V2 (Remix)”
Não satisfeita em lançar um dos melhores álbuns do ano passado, Amaríssima, a baiana Melly, mulher bissexual que é uma das vozes mais potentes da atualidade, lançou o Amaríssima V2, versão deluxe, vitaminada, eletrônica e bombada de seu primeiro álbum de estúdio. Composto por nove faixas, o projeto se apresenta como uma releitura das canções originais, criada em colaboração com grandes cantores e produtores musicais, como Karol Conká, Luccas Carlos, Duda Beat, Carlos do Complexo e Nave, além de apostar no talento de Duda Raupp, produtor selecionado por meio de um concurso aberto aos fãs. “Cacau caiu” na pista. Chique demais.
Coletânea do selo Caquí – “Maré”
O selo Caquí é idealizado por Reiner, artista paraense que teve destaque na Sexta Sei com seu álbum de estreia, Elã, e por Pratagy, cantor paraense com quatro álbuns lançados, e a ideia é tornar a cena musical de Belém mais acessível, com o lançamento da coletânea de novos artistas Maré. O projeto Caquiado tem patrocínio da Natura Musical e valoriza a diversidade da música paraense, destacando mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e artistas periféricos. Minha canção favorita é, disparado, “Motinho Envenenada”, de Mist Kupp, de Vigia, que entra na onda “Motomami”. “Sonoramente, é a música mais eletrônica do álbum, mais pesadona também, com muitos graves”, comenta Pratagy.
“Ela faz vrum, vrum, vrum, a boneca tá na pista, doida pra passar mais um”, diz a letra, cheia de sabor. Também são artistas LGBTQIAPN+ Paso, de Marajó, que gravou uma espécie de mantra; Agarby, trans de Belém, que fez a faixa “Mana” toda em pajubá, narrando essa coisa noturna de sair e curtir; Raíssa, vocalista da banda Cout; a mulher trans Helena Ressoa, que gravou o xote “Amaré”; e W Mate-U, que batiza a coletânea com sua faixa “Marés”.
“O W Mate-U é um artista que pensa não só em música, mas também na visualidade, na persona, no figurino, e amarra tudo isso em um discurso. Isso é algo que a gente acha que tem a cara do artista nortista, porque levantar um som para nós é algo que é político, é lutar contra as forças que historicamente e sistematicamente tentam derrubar nossas florestas, nossas culturas. Por isso, a música ‘Marés’ acabou dando nome ao disco, por juntar tanto a musicalidade quanto um discurso que é mais do que nunca necessário”, explica Pratagy.
A coletânea ainda traz sons de Sidiane Nunes em “Pesqueira”, um R&B com percussões de lundu e carimbó, Paulyanne Paes, Lina Leão, Matheus Pojo e Jheni Cohen, em deliciosa fusão de pop e ritmos amazônicos, conectando o tradicional ao experimental. “Maré” terá edições especiais em vinil e fita K7, um espetáculo ao vivo e um filme-manifesto dirigido por Anna Suav.
Sevdaliza e Irmãs de Pau – “Maria Magdalena”
A cantora, compositora, produtora, artista visual e diretora holandesa-iraniana Sevdaliza fugiu de sua cidade natal, Teerã, aos cinco anos de idade e, depois de brilhar como jogadora profissional de basquete na seleção holandesa, virou fenômeno musical gravando com outras artistas cult, como Grimes, Tokischa e Villano Antillano. Recentemente, viralizou com a coreografia de “Alibi” com Pabllo Vittar e a francesa Yseult, e ainda com “No me cansare”, com a colombiana Karol G. Agora, lançou feat com as nossas talentosas Irmãs de Pau, com produção dela mesmo, que produz seu trabalho com o parceiro Mucky. Liricamente, “Maria Magdalena” é sobre uma mulher santa, mas, musicalmente, é um cruzamento entre reggaeton, eletrônica e a melodia totalmente inesperada de Super Mario. Sevdaliza faz show em São Paulo, no dia 8 de maio, no Tokio Marine Hall.
Bob the Drag Queen – “Queen of the underground”
Um das drags mais criativas e potentes que já passou pela corrida da RuPaul e caiu nas graças de Madonna, participando de sua Celebration Tour, Bob the Drag Queen lançou o single “Queen of the underground”, pela PEG Records, para divulgar o seu primeiro romance, Harriet Tubman: Live In Concert, lançado no fim de março pela Gallery Books. Ela também acabou de perder o reality show The Traitors, o que a internet julgou como “roubo”. No vídeo, a drag canaliza Tubman, ícone feminista e negro estadunidense que viveu entre 1822 e 1913, abolicionista e ativista americana que nasceu escravizada, escapou e fez 19 missões para resgatar cerca de 300 escravos, usando a rede de ativistas antiescravatura e abrigos Underground Railroad. Ela também foi ativista pelo sufrágio feminino. O livro imagina o que aconteceria se essa verdadeira lenda da história americana gravasse seu próprio álbum.
Utopixxxta – “Mais mais”
Já tem um tempo que eu falei aqui do trio de música eletrônica de Beloryhills UTOPIXXXTA, comentando o remix de “Secos e Molhados”. Ele abrem a temporada 2025 de lançamentos com “Mais Mais”, com produção da Peppa, a nossa querida e amada Boss in Drama, que se despediu de nós em fevereiro. Alexandre Matias fez um obituário aqui sobre sua partida, tão jovem, aos 37 anos. Em momento delicado, foi a única que não soltou a mão de Karol Conká, de quem produziu o álbum Ambulante, o segundo da carreira dela, com os hits “Kaça”, “Vogue do Gueto” e “Saudade”. Ela também fez produções para Linn da Quebrada, Tuyo e Jaloo. Em 2023, ela passou a se identificar como uma mulher trans. “Este é um momento para celebrar o talento e o legado de Peppa Oliveira, que tanto nos inspirou na criação desta música”, conta Rodrigo Moreira, um dos integrantes do trio, sobre a faixa, que ganhou lyric video. A faixa é inspirada pelas diversas ondas da disco music e tem letra hedonista de forte carga erótica fala sobre desejos que nunca são saciados e é embalada por um som dançante de groove irresistível. Entrevistei o trio pra Sexta Sei, em março, aqui.
Malka Julieta e Deize Tigrona – “Sururu das meninas pt2”
Conheci Malka Julieta em evento no Museu Ferroviário, aqui em Jufas, quando ela comandava a Trava Bizness, selo musical fundado em 2019 e focado em produções de artistas transexuais, como a MC Xuxú. Ela já integrou a banda Verônica decide morrer, colaborou com Badsista, integrou a banda de Mc Tha e, agora, prepara-se para lançar seu primeiro disco solo, Chão, previsto para abril, com participações de Brisa Flow, Dharma Jhaz, Badsista, Potyguara Bardo e Deize Tigrona, que está no primeiro single lançado, “Sururu das Meninas pt2”, dando continuidade ao trabalho iniciado no segundo álbum de Deize, Foi eu que fiz. Na faixa, Deize conta que as meninas andam “sarrando” na sua Glock. Com influências de funk, pop e amapiano, a música transborda afeto, liberdade e celebra as relações entre mulheres em um contexto de festa, desejo e resistência. A faixa carrega um significado profundo: a construção de um imaginário que represente e fortaleça as vivências lésbicas, bissexuais e todas as formas de afeto que foram historicamente invisibilizadas. O lançamento também reforça a importância da presença de mulheres que desafiam padrões etários e de gênero no cenário musical.
Ventura Profana – “Giramundo”
Doutrinada em templos batistas, a artista baiana Ventura Profana é, além de negra, indígena e travesti, pastora missionária e cantora evangelista, cuja prática está enraizada na pesquisa das implicações e metodologias do evangelicalismo no Brasil e no exterior, por meio da difusão das igrejas neopentecostais. A belíssima “Giramundo”, uma das músicas mais bonitas desse 2025, é uma mostra de seu álbum de estreia, que está vindo aí. A faixa tem colaboração de Beá Ayòólaá na composição, o mestre Gabi Guedes, um dos percussionistas mais importantes do mundo, criado no Alto do Gantois e com mais de 50 anos de estrada. “Giramundo” é uma ode às danças do tempo, uma prece à mudança, um louvor às transformações.
“Faço canções para não adoecer. Esse single não está separado de todos os que lancei anteriormente ou dos que ainda virão. Meu objetivo é produzir uma obra que esteja integrada, todas as músicas nascidas de mim são fruto de uma ambição de transformação coletiva nos âmbitos político, social, ambiental e sobretudo espiritual”, reflete.
Ana Gabriela – “Sofrer por você”
“Sofrer por você” é o terceiro single de Baseado em fatos reais (menos as partes que eu inventei), o quarto álbum da cantora, compositora e musicista de São José dos Campos (SP) Ana Gabriela, que chega em maio. Eu gostei bastante desse single, que chega pra dar uma guinada na carreira da artista, mudando sua sonoridade pop com um tempero extra de R&B. “Sofrer por você” é mais uma composição da artista em parceria com Gabriel Froede e Lucas Andrade. A letra traz sentimentos que geram grande identificação no público: contradição, entrega, apego no conhecido e recaídas conscientes. O trecho “pra que sofrer por outro alguém, se eu posso sofrer por você?” é muito fofo. Assim como a melodia, o vídeo também se aproxima de características urbanas, com direção de imagem de Gabriel Faria, do canal Quebrando a Caixa e Stéfano Loscalzo. O clipe mostra o reencontro de duas garotas que já viveram um relacionamento em uma festa e percebem que a faísca ainda existe, entre olhares, sorrisos e novas entregas. A proposta do álbum é, justamente, narrar um relacionamento do início ao fim.
Josyara – “Corredeiras” e “Sobre Nós”
Depois de “Ensacado”, a cantora, compositora e instrumentista baiana Josyara que eu gosto lançou uma dupla de singles, “Corredeiras” e “Sobre Nós”, antecipando Avia, seu terceiro álbum, que chega no dia 11, produzido por ela e Rafael Ramos, da Deck. “Corredeiras” foi totalmente inspirada na vida real, mostrando o primeiro contato da artista com um violão, brincando de destruir o instrumento de seu avô, em Juazeiro (BA). Ela começou a aprender a tocar um pouco depois, aos dez anos, e o clipe faz esse caminho entre o primeiro contato e os palcos, com uma roupa linda de morrer. “Sobre Nós” é composição em parceria com a conterrânea Pitty que fala sobre amor, paixão e entrega.
“Eu postei no Twitter sobre como eu gosto de ser romântica e, para minha surpresa, Pitty comentou: ‘letra!'”, conta. Neste novo álbum, como em todos os anteriores, o violão continua sendo a base e o diferencial tanto das canções autorais, como das releituras de outras compositoras, re-arranjadas e interpretadas por ela. O álbum tem nomes de peso, como Alberto Continentino (baixo), Bruno Marques (bateria), Kainã do Jêje (percussão), Diogo Gomes (trompete), Jorge Continentino (saxofone e flauta), Marlon Sette (trombone), Felipe Ventura (violino e viola) e Marcus Ribeiro (cello). O novo álbum foi gravado no Estúdio Tambor, no Rio de Janeiro (RJ), com gravações adicionais no Estúdio T, em Salvador (BA).
Moreira também está ouvindo:
- “Febre remix”, JnrBeats Liniker
- “I don´t like your boyfriend”, Anne-Marie
- “A fragilidade de seu um machão”, The Mönic e Meu Funeral
- “Azul profundo”, Shigara e Nanki
- “Melo do Bode”, Manu Chao, Juliana Linhares e Felipe Cordeiro
- “Handlebars”, Jennie e Dua Lipa
- “Beautiful People”, SIA e David Guetta
- “Swing for fences”, Elton John e Brandi Carlile
- “Além do seu portão”, Ravih
- 1972, compacto, Gal Costa
- “Still bad”, Lizzo
- Bouquet deluxe, Gwen Stefani
- I said I love you first, Selena Gomez e benny blanco
- “Me amarro nela”, Lais Bianchessi
- “Alfonsina y el mar”, Virgínia Rodrigues e Jão Fênix
- “Your soul is mine”, Idlibra
- “Bola de Cristal”, Hiran e Rachel Reis
- “Gatas extraordinárias”, Ana Carolina
- “Última”, Shakira
- “Piscis”, Tokischa e Papatinho
- “blackout”, Emilia, Nicki Nicole e Tini
- “Physical”, Dua Lipa e Troye Sivan
- “Pq vc briga cmg?”, Larinhx e Maffalda
- eternal sunshine deluxe: brighter days ahead, Ariana Grande
- Sunshine & Rain…, Kali Uchis
- Mouth, Superafim
- Mulher palavra, Laura Conceição
*Fabiano Moreira é jornalista desde 1997 e já passou pelas redações de O Globo, Tribuna de Minas, Mix Brasil, RG e Baixo Centro, além de ter produzido a festa Bootie Rio. Atualmente, escreve no Baixo Centro, fazendo a Sexta Sei, e aqui na Híbrida.
As opiniões e comentários expostos na coluna são de responsabilidade do autor.