A comunidade LGBT da Rússia continua sendo caçada e executada sob o regime de Vladimir Putin. Depois dos campos de concentração descobertos na Chechênia, a tortura de lésbicas no ano passado e o assassinato do cantor Zelimkhan Bakayev, foi descoberto no país o site Saw. Inspirado no filme “Jogos Mortais”, ele promovia a identificação, perseguição e tortura  de LGBTs.

A primeira vítima do site foi encontrada na noite do último sábado (19), com marcas de estrangulamento e facadas pelo corpo. Aos 41 anos, a ativista Yelena Grigoryeva lutava por direitos humanos na Rússia e já havia sido presa no ano passado, em uma manifestação contra a lei que proíbe a “propaganda gay” no país.

Em abril, Yelena começou a relatar à polícia russa que estava recebendo ameaças de morte. Nesta semana, seu corpo foi encontrado em arbustos próximos à sua casa, em São Petersburgo, com marcas de pelo menos oito facadas e estrangulamento. De acordo com Dinar Idrisov, amigo da vítima, as autoridades locais nunca fizeram nada para protegê-la dessas ameaças.

Corpo de Yelena Grigoryeva (41) foi encontrado próximo à sua casa, em São Petersburgo, com marcas de facadas e estrangulamento (Foto: Reprodução)
Corpo de Yelena Grigoryeva (41) foi encontrado próximo à sua casa, em São Petersburgo, com marcas de facadas e estrangulamento (Foto: Reprodução)

Um jogo para identificar e caçar LGBTs

Apesar de ter sido derrubado na última semana, o “Saw” operava desde 2018 na Rússia e seus criadores nunca foram identificados pela polícia. De acordo com a ONG Russian LGBT Network, a página já havia sido temporariamente removida antes e, dessa vez, eles acreditam que sua suspensão seja definitiva.

Inspirado na franquia 'Jogos Mortais', site Saw promovia a identificação, caça e tortura de LGBTs na Rússia (Foto: Reprodução)
Inspirado na franquia ‘Jogos Mortais’, site Saw promovia a identificação, caça e tortura de LGBTs na Rússia (Foto: Reprodução)

No site, os usuários eram cobrados para acessar um banco de dados com os perfis de LGBTs na Rússia, como ativistas e jornalistas. Misha Tumasov, diretora da Russian LGBT Network, precisou sair do país após receber ameaças de morte e o nome de Igor Kochetkov, co-fundador da ONG, também constava na plataforma.

Entre as “regras” do “Chechnya Comeback” (O Retorno da Chechênia, em tradução livre), o site pedia que seus jogadores postassem informações sobre LGBTs na plataforma para encontrarem “alvos”. Além de oferecer proteção legal aos usuários, o  “jogo” também alertava que os “caçadores de gays” poderiam fazer qualquer coisa com as vítimas, “menos matá-las”.

Enquanto o site se inspirava na franquia “Jogos Mortais”, o nome do jogo fazia referência aos campos de concentração encontrados em 2017 na Chechênia, onde mais de 200 LGBTs já foram levados para serem torturados e executados pela polícia local. Confrontado pelos crimes, o líder checheno, Ramzan Kadyrov, afirmou:  “Nossa sociedade nunca teve esse fenômeno denominado orientação sexual não-tradicional. […] Você não pode deter e perseguir pessoas que simplesmente não existem na República”.

Em 2017, Ramzan Kadyrov não só negou a perseguição de LGBTs na Chechênia, como também disse que o país nunca teve "esse fenômeno da orientação sexual não-tradicional" (Foto: Kremlin Press Service | Divulgação)
Em 2017, Ramzan Kadyrov não só negou a perseguição de LGBTs na Chechênia, como também disse que o país nunca teve “esse fenômeno da orientação sexual não-tradicional” (Foto: Kremlin Press Service | Divulgação)

“Se existisse tal tipo de pessoas na Chechênia, os órgãos de aplicação da lei não precisariam se preocupar com elas porque seus próprios parentes as mandariam para um lugar de onde não pudessem voltar”, acrescentou.

À época, as vítimas que conseguiram escapar dessas instalações tiveram que ser retiradas do país. Um desses homens, em entrevista à BBC, confessou que tinha medo de voltar para casa, porque seus pais agora sabiam de sua orientação sexual e poderiam executá-lo para “limpar a honra da família”.

Em 2018, Igor Kochetkov deu uma coletiva de imprensa através da Russian LGBT Network e afirmou que pelo menos 114 pessoas foram evacuadas do país através da ONG e, apenas este ano, já foram registrados 40 prisões e ao menos duas execuções na região.Ainda de acordo com um comunicado da ONG, pouco tem sido feito pelas autoridades locais para que esses crimes sejam investigados ou punidos.

Clique na imagem abaixo para ler nossa matéria especial sobre a perseguição contra LGBTs na Chechênia e os desafios da Russia LGBT Network para ajudar esses refugiados a saírem do país:

CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NA CHECHÊNIA
CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NA CHECHÊNIA