“Intenso” e “emocionado” são dois do sprincipais que Chameleo usa para se descrever e para falar do EP Versão dos Fatos, lançado em agosto com a missão de anunciar uma nova identidade a ser explorada na sua carreira.
“Eu sabia que queria um projeto que fizesse a transição para esse meu lado mais sentimental, mais emocional”, conta Chameleo, em entrevista à Híbrida.
Ao longon de sete música, ele realmente toca em assuntos mais profundos em meio a declarações, promessas, vulnerabilidades, desejos e saudades, sem deixar pra trás a batida descaradamente pop e dançante que marcou trabalhos anteriores como “frequente(mente)”, “Te Odeio“ e “Enigma”.
“Eu queria abordar esse lado mais romântico porque eu já falei bastante sobre relações amorosas, mas mais de uma perspectiva de desamor do que de amor”, conta.
Abaixo, Chameleo conta dos relacionamentos que inspiraram o novo trabalho, a motivação para mostrar seu lado pessoal, como lida com o hate online e o que mudou no cenário comercial para artistas LGBTQIA+.
HÍBRIDA: Qual foi o seu ponto de partida pra esse EP?
CHAMELEO: Eu sinto que é uma nova etapa da minha carreira, onde eu quero trabalhar mais vulnerabilidade, traumas e assuntos que, no último álbum, eu acabei deixando de lado. E aí vem muito daquela coisa de saber rebolar entre o que você realmente quer fazer, o que seu instinto tá pedindo, e o que você acha que as pessoas querem de você.
Depois do meu último álbum, Alta Tensão, e aí o Sobrecarga, entendi que queria voltar a falar de assuntos mais profundos. Eu fazia muito isso quando comecei na música, ainda em inglês, que eu explorava esse lado de ir para dentro da cabeça e cutucar mesmo. Então, eu sabia que queria um projeto que fizesse a transição para esse meu lado mais sentimental, mais emocional.
Sinto que nos últimos trabalhos eu estava explorando mais esse lado festa e não indo tão, tão, tão lá no fundo assim
H: Mas teve algo que provocou essa percepção de que você tava tratando a música só no superficial e queria se aprofundar? Por quê?
C: Acho que são coisas que vêm com a maturidade. Esse ano eu tô passando por questões internas muito fortes. Depois que fiz 30 anos, tudo começou a mudar.
H: Sim, os 30 “viram a chave” de verdade.
C: E foi meio natural, como quando eu escrevi meu último álbum. Era completamente natural estar falando sobre aquelas coisas naquele momento. E eu sou muito intenso na forma como eu vivo, como eu escrevo e faço música. Para esse projeto, eu voltei a falar com pessoas do passado.
H: Ele realmente tem cara de que um “oi, sumido” apareceu ali.
C: Exatamente. Eu queria abordar esse lado mais romântico porque eu já falei bastante sobre relações amorosas, mas mais de uma perspectiva de desamor do que de amor.
H: Eu fiquei pensando nisso, porque o EP tem várias referências que devem ser muito específicas para você e para a pessoa de quem as músicas tratam.
C: Com certeza. E quem tá envolvido sabe.
H: Como você lida com isso? Você fica nervoso de botar algo específico na música?
C: Não. Acho que já fiquei mais, hoje em dia, não. Porque foram poucas pessoas pelas quais eu realmente me apaixonei – dá pra botar nos dedos de uma mão. Então, eu já deixei claro para essa pessoa. Mas falo também através da música que não é “Ai, vou para sempre ser a fim da pessoa” ou “vou ser para sempre apaixonado”.
O sentimento não é latente, mas ele tá dizendo, sabe? Eu voltei a me relacionar com essa pessoa de uma forma de amizade, mas não é igual um amigo, né? Sempre fica um carinho diferenciado.
H: No clipe de “Impostor” tem um subtexto de religião e culpa também. Qual a sua relação com isso? Você tem um background católico ou foi simplesmente imaginação?
C: Pelo contrário, minha família toda é da macumba. (risos) Mas é uma questão que não precisa ser católico para entender por trás dessa crença e da hipocrisia que rola. Não só do catolicismo, acho que de uma forma geral, mas dentro da igreja a gente escuta muito isso.
Eu quis retratar para dar uma alfinetadinha mesmo. É um romance proibido, retratado nos anos 50. Por isso que a gente escolheu uma câmera antiga também, para trazer essa pintura desse romance proibido. Já vivi romances proibidos, não necessariamente ligados à religião, mas no fundo eu queria abordar esse tema que é muito presente.
H: Eu não sei se pessoas LGBT+ no geral, mas pelo menos na minha experiência de homem gay, relacionamento proibido é meio comum, tipo: “Ai, peguei um cara que não saiu do armário ainda”, ou um cara que é casado e eu descobri depois, sei lá.
C: É muito comum. Acaba virando até uma forma de fantasia também. Mas assim, na prática não é muito legal. Funciona mais na teoria dessa fantasia. Na prática, eu quero alguém bem resolvido, que não tenha vergonha. Cada um já passa pelo seu processo de aceitação. Eu quero estar com alguém que me impulsiona.
H: “Gente chata” sai um pouco da vibe relacionamento. Você falou agora que pensou muito no que os outros esperam de você e no que você tá querendo mostrar agora. Essa música toca nisso?
C: Super, tem esse link. É mais sobre a hipocrisia mesmo. Na letra fala: “Se tivesse no meu lugar, não faria diferente”, né? Não importa o que você faça, sempre vão falar. Até da Beyoncé falam mal. (Risos) Essa música é meio que um desabafo nesse sentido.
Eu tava no estúdio com a Jenni [Mosello], que já é uma super parceira, colaboradora desde o começo da minha carreira, e a gente queria algo bem diferente do que a gente já fez. Aí, sempre no estúdio, começa: “Ah, o que que a gente vai falar?”. E tem muita gente chata na internet, na vida. Então, veio naturalmente, não precisou pensar muito, né?
H: Com essa coisa do algoritmo, às vezes você cai em uns buracos negros… Eu sou mineiro e esses dias rolou uma onda de ódio contra mineiros também, do nada.
C: Geralmente, o post de ódio mesmo é no Twitter. No Instagram eu não sinto tanto, nem no TikTok. Eu não sou tão ativo na plataforma, mas Twitter sempre foi, sempre será esse…
H: Hospício, né?
C: Às vezes é até adolescente, que ainda não tem muita noção e vai destilando as próprias frustrações ali. E é quando você começa a receber hate, (precisa) lembrar desses pontos. Mas uma mensagem é uma energia também. Então quando você lê aquilo, te afeta de alguma forma, né? O lance é não deixar isso ter um peso maior do que é. Porque se você apaga o aplicativo do seu celular, simplesmente não existe mais aquele problema.
Mas eu tenho dificuldade em ignorar às vezes. Quando vejo, já respondi. Mas não precisa, sabe? Porque no fim é isso que a galera quer, essa resposta. Às vezes só quer chamar atenção.
H: Quando você surgiu, tinha uma cena muito forte de artistas LGBT+ surgindo também. Houve toda uma época de vários festivais, toda semana tinha algum show em alguma casa grande.
C: Saudade.
H: Eu ficava vendo as agendas e pensava “O povo tá rodando, né”. E uma discussão que eu acho que a Parada [do Orgulho de SP] trouxe foi sobre essa queda de incentivo, tanto financeiro quanto de abertura na mídia, em geral. Você sentiu isso?
C: Sem dúvida. Eu sinto que o mercado de shows está mudando, e de publicidade por influência também. Não só dentro da pauta LGBT, mas de uma forma geral. Eu sinto que para as marcas, para as grandes empresas, já não é uma pauta “fresh”.

H: Parece que eles tão saturados de falar…
C: Saturou, exato. A gente vê cada vez menos apoio em relação a isso. A Parada foi uma escadinha, né? Esse ano saiu a notícia que realmente não tinha investimento, mas ano passado já não tinha. Para as grandes marcas, realmente, não é mais a pauta “do momento”. Os próprios festivais também.
H: A gente tá chegando no final da entrevista, mas eu queria perguntar: qual a mensagem principal que você quer que as pessoas tirem de Versão dos Fatos?
C: Que não existe uma verdade absoluta no contexto das relações amorosas. Existe a versão de cada um, de acordo com as emoções, com os sentimentos que cada um vive. Eu sou intensa. Às vezes, se você perguntar para a pessoa a qual eu direcionei a inspiração das músicas, vai ser outra perspectiva, outra percepção.
Toda história vai ter uma versão dependendo de quem conta, e isso não deixa de ser uma verdade. Ainda mais quando a gente tá falando sobre relacionamentos amorosos, que envolve emoção, paixão, são coisas que, meu deus… Estoura o peito.
Essa é a minha versão dos fatos. Lembrando que eu sou uma pessoa emocionada, eu sou ascendente e lua em câncer.
H: Nossa senhora
C: E cada vez mais eu quero explorar questões da minha história, voltar no passado, falar de coisas que ainda não falei, coisas não tão confortáveis, mas que que vêm de encontro com esse momento pessoal pelo qual eu tô passando. Chegou a hora de tocar nessas feridas.
H: Ah, é bom. É bom porque ajuda também a mudar nossa relação com isso.








