Na última terça-feira (4), a Paraíso do Tuiuti fez um desfile de Carnaval histórico na Marquês de Sapucaí ao homenagear Xica Manicongo em seu enredo deste ano. Para falar sobre a primeira travesti não-indígena do Brasil, e símbolo de luta e resistência para a comunidade LGBTQIA+, o carnavalesco Jack Vasconcelos trouxe referências dessa personagem histórica e também muita representatividade. 

Após a apuração das notas na Quarta-feira de Cinzas, a Tuiuti terminou em 10º lugar entre as escolas de samba do carnaval do Rio de Janeiro, um resultado aquém do esperado, mas que sem dúvidas abre as portas – e a avenida – para mais enredos que enaltecem figuras da comunidade no maior espetáculo do planeta. A Híbrida selecionou cinco momentos inesquecíveis desse evento histórico para os LGBTQIA+! 

A presença de Erika Hilton

Antes mesmo do desfile começar, a deputada federal Erika Hilton, uma das estrelas convidadas para participar do desfile, discursou no carro de som: “Jogaram o corpo de Xica na fogueira, na tentativa de calar os corpos trans, a diversidade, e a comunidade LGBT, mas desde de Xica Manicongo, nós estamos dizendo: “Sociedade racista, transfóbica e lgbtfóbica, nós estamos aqui!”

Em entrevista ao Gshow, a parlamentar do PSOL-SP revelou que viajou uma vez por semana ao Rio de Janeiro, durante três meses, para ensaiar escondida para sua apresentação de estreia na Marquês de Sapucaí. 

 

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Uma Comissão de Frente arrebatadora

A comissão de frente foi um espetáculo à parte. Coreografadas por Claudia Mota e Edifranc Alves, 26 bailarinas trans e travestis encenaram o julgamento de Xica Manicongo, que foi condenada à morte pelo Tribunal do Santo Ofício e queimada em praça pública. O primeiro ato da escola de São Cristóvão, trazia várias travesti vestidas com as cores da bandeira trans, e a deputada Erika Hilton com uma faixa de presidente do Brasil. O objetivo cênico ficou claro: se antes eram queimadas, hoje as pessoas trans podem ser o que elas quiserem. 

 

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A emoção de Milton Cunha

Logo no início da transmissão oficial do desfile na TV Globo, o comentarista Milton Cunha, referência em cultura brasileira, fez um breve e importante discurso sobre a importância do enredo da Tuiuti e a luta diária de pessoas LGBTQIA+ em um país tão violento para a comunidade como é o Brasil. 

“Todos os seres humanos, parem de nos matar. O Brasil é o país que mais nos mata no mundo”, destacou. “É dramático, é veemente. Cada dedo que nos apontam, cada olhar. Nós somos crianças espancadas, nós somos crianças jogadas para escanteio. A gente não pode ir na sala porque os vizinhos, os juízes, os diretores de colégio, os padres, todo mundo odeia a gente.”

O poder de Mestre Markinhos

Aos 30 anos, Marcos Júnior, o mestre Markinhos, é diretor de bateria da Paraíso da Tuiuti e abertamente homossexual. No ano passado, ele foi escolhido por ninguém menos que Madonna para reunir as crianças ritmistas que se apresentaram no histórico show da Rainha do Pop na Praia de Copacabana. Neste carnaval, ele esteve mais uma vez à frente da bateria SuperSom, ao lado do pai Mestre Marcão – e ainda desfilando em cima de um salto de 12 cm! 

Homenagem à Eloína dos Leopardos 

A primeira rainha de bateria da história também foi homenageada pela Paraíso do Tuiuti: Eloína dos Leopardos veio como destaque no último carro alegórico da escola, nomeado de “Traviarcado”. Em 1976, a travesti foi convidada pelo carnavalesco Joãozinho 30 para sambar à frente dos ritmistas da Beija-flor de Nilópolis, ocupando um posto até então inédito no carnaval carioca.