Recém-saída de uma participação marcante no horário nobre da TV Globo, Gabriela Loran está colhendo os frutos da popularidade que alcançou com a Viviane, de Três Graças. Seja pelo carisma que imprimiu à farmacêutica ou o apelo do triângulo amoroso vivido com os personagens de Pedro Novaes e Adriano Toloza, a atriz foi considerada desde o início um dos destaques da trama de Aguinaldo Silva. Agora, ela aproveita esse reconhecimento tardio para embalar uma sequência de projetos há muito sonhados e que vão dar mais tons à paleta de cores com que tem colorido sua carreira até aqui.
“Quando a gente tem a oportunidade de humanizar a Viviane, ela foi para além das questões que envolviam a condição de vida dela. Ela era humana.”
No horizonte próximo, Gabriela já tem engatilhadas duas estreias na carreira. Ela vai viver pela primeira vez uma protagonista legítima como Isabela Babayan, uma chef cisgênera que está no centro de um triângulo amoroso na comédia romântica À La Carte, dirigida por Natália Grimberg, escrita por Juan Jullian, e que acabou de ser filmada no Rio Grande do Norte.
Fresquinha das praias de Pipa e Natal, Gabriela Loran conta que a comédia romântica tem um quê a mais de especial porque, além de ser sua primeira protagonista, também é a primeira mulher cisgênera que ela vai viver na ficção.
“Esse lugar que eu habitei agora foge de qualquer tipo de estereótipo. As problemáticas que eu vivi com essa personagem não foram relacionadas a quem ela era, não era sobre isso. É um autoconhecimento dela de se redescobrir, de descobrir o tempero da comida dela, a relação com a mãe, o romance que ela estava vivendo…”, comemora.
Com mais essa mocinha no bolso, a volta de Gabriela Loran à TV será como sua primeira vilã, ainda sem nome definido nem data para começar a ser gravada. Depois de viver Priscila, uma professora de dança em Malhação – Vidas Brasileiras (2018); Luana, em Cara e Coragem (2022); e Maitê, no remake de Renascer (2024); a próxima trama é na faixa das 18h, Lá na Minha Terra.
Eu quero me experimentar nesse lugar da vilania. Acho que é legal poder atrapalhar um pouquinho a trama
Gabriela deve viver uma trama marcada por “ambição, sedução e conflitos” no núcleo de um cabaré. A novela é escrita por Mario Teixeira (No Rancho Fundo e Mar do Sertão) e tem direção artística de Allan Fiterman (Dona de Mim).
Tem também a 6ª temporada de Anjo Renegado, do Globoplay, na qual ela dá vida a Giovanna, que começou a série como uma assessora parlamentar na Alerj e agora é vereadora do Rio. ”…”.
HÍBRIDA: Como está sua vida pós-Viviane? O que tem de projeto pela frente?
GABRIELA LORAN: A Viviane foi um presente, um divisor de águas na minha carreira, na minha vida e está me fazendo colher frutos maravilhosos. E esse filme é um deles, né? Alguns meses atrás eu tinha dado entrevistas dizendo que os próximos trabalhos que eu queria poder vivenciar seria uma protagonista e uma vilã.
E a protagonista veio muito rápido porque essa personagem, esse filme é muito especial. Primeiro porque ele marca a minha terceira personagem com a Natália Grinberg na direção. Ela foi a minha diretora na Globo, lá em Malhação – Vidas Brasileiras. Depois, a gente fez Cara e Coragem. E, agora, tive a oportunidade de ter ela como minha diretora na minha primeira protagonista.
Isso porque eu disse para ela lá atrás: “Você vai ser a diretora da minha primeira protagonista”. E foi ela mesma. A gente terminou de gravar agora, sábado passado. Amor à La Carte é uma comédia romântica que tem todos os elementos da comédia romântica, que é Lovers and Enemies. Esse casal tem conflitos sérios, mas também tem comicidade, tem humor, é leve.. E é muito gostoso. É um filme que fala sobre comida também e se passa no eixo São Paulo – Rio Grande do Norte. Então, a gente tem Natal e Pipa como protagonistas do nosso filme também.
H: E como é a sua personagem? O que ela traz de diferente pra você?
GL: Foi desafiador viver a Isabela Babayan, porque ela é muito diferente de mim. Ela é mais nova que eu, tem em torno de 25 anos, ela é chefe de cozinha, vem de uma família rica e estudou nas melhores faculdades. Por mais que ela seja uma chefe incrível, ao mesmo tempo ela tem umas inseguranças porque vive à sombra da mãe. É um filme muito legal. O roteiro é do Juan Jullian, que é um querido, com um texto muito sensível, muito gostoso de ser falado. É um filme que me emocionou muito. Eu chorei muito. A gente começou pela viagem, a gente começou gravando lá em Pipa.
H: Você falou rapidamente que queria fazer vilã e toda atriz que eu entrevistei fala que fazer vilã é 10 vezes melhor do que a mocinha porque consegue botar para fora um negócio que não botava de jeito nenhum. Como tá essa preparação?
GL: Então, eles ainda nem permitiram que a gente fale sobre porque nem começou a preparação ainda. Chegaram a sair algumas notas sobre, mas nenhuma delas é oficial e aí eles pediram para a gente dar uma segurada. Eu ainda não peguei roteiro, ainda não sei da personagem em si. Existe o convite, isso existe, mas ainda não sei o desdobramento, não sei como vai ser a personagem, não tenho muita noção. Essas informações que estão saindo são surpresas até para mim.
H: Mas a expectativa de fazer uma vilã é algo que te anima, te amedronta…? Porque você só fez mocinhas até aqui, né?
GL: Sim. Saí da Viviane, que é uma mocinha, entro na Isabela, que é uma mocinha também, querendo não, não. E aí, poder viver uma vilã é muito gostoso, porque eu acabei de ter uma experiência incrível com a Grazi (Massafera) fazendo a Arminda e tendo carta branca para a vilania, né? Isso é muito gostoso, porque retrata muito das mulheres que existem. Existem muitas vilãs no nosso dia-a-dia, né. A gente conhece, né?
Quando a gente começou a ver a Arminda da Grazi, muitas pessoas falavam: “Nossa, parece a fulana de tal”, “Nossa, eu sentei no salão esses dias e tinha uma mulher igual a Arminda”. A Arminda virou até apelido para essas mulheres. Então, poder fazer uma vilã é gostoso porque tem essa possibilidade de acessar lugares que a licença poética de uma vilã permite.
Eu amo fazer mocinha, acho que é muito gostoso. Quero fazer uma protagonista mocinha numa novela, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, eu quero me experimentar nesse lugar da vilania, sim. Acho que é legal poder atrapalhar um pouquinho a trama.
H: Eu acho que o brasileiro tem uma quedinha por vilãs, né? A gente até hoje ama a Flora, a Nazaré, a Carminha, a Odete da Deborah Bloch fez super sucesso também, a Arminda, como você falou…
GL: Quando você consegue misturar essa vilania com comicidade, humanizar essa personagem… Acho que é importante humanizar a vilã e, ao mesmo tempo, trazer humor para ela, né?

H: Eu tava lendo suas entrevistas antigas aqui para híbrida e eu fiquei até arrepiado porque a gente tava falando sobre já ser muito pioneiro ser a primeira primeira personagem trans em 24 anos de Malhação. Eh, aí você virou e falou assim: “Eu não tive essa referência no passado e OK, mas hoje eu posso ser essa referência para para essas pessoas. Talvez pela falta de representatividade, eu tenha demorado mais para começar a minha transição. Hoje, tendo isso, eu vou ajudar a formar um público que daqui a 10 anos estará assistindo a novela das 9 horas e se imaginando lá”.
GL: Eu falei isso?
H: Você falou isso em 2017.
GL: Caramba, cara. Que loucura, né? E passaram-se 10 anos e quem tá aqui fazendo na novela das 21h sou eu, sabe? É muito bonito poder ver isso. Às vezes, as pessoas nos vêm alcançando esses lugares e elas só conseguem ver os louros, as coisas boas que a gente tem. Quando as pessoas me veem fazendo publicidade com uma marca grande, elas acham que eu virei alguém do nada assim. E não, tem toda uma trajetória que me trouxe até aqui, né? Ser uma mulher LGBT, negra, da periferia e não ter desistido.
Eu venho de uma história que já tô galgando um espaço de trabalho há muito tempo, mas sempre em personagens secundários. Sempre a amiga, a fulana, nunca é a personagem. A A Viviane foi a primeira vez que eu tive a oportunidade de dividir mesmo o protagonismo ali, por mais que ela fosse amiga da Gerlucy, ela tinha um enredo próprio e esse enredo interessava muito o público que assistia. E isso era muito gostoso porque as pessoas na rua paravam e me falavam: “Cara, para mim você é a protagonista também, você tá grandona”. E eu falava: “Cara, que legal poder ter esse reconhecimento das pessoas”.
Esse lugar que eu habitei agora foge de qualquer tipo de estereótipo. As problemáticas que eu vivi com essa personagem não foram relacionadas a quem ela era, não era sobre isso. É um autoconhecimento dela de se redescobrir, de descobrir o tempero da comida dela. A problemática era a relação com a mãe, era o romance que ela estava vivendo, um triângulo amoroso. Não era “Ai, meu Deus, mais uma vez eu vou ter que corrigir texto, mais uma vez eu vou ter que falar isso aqui que eu não tô mais aguentando falar”.
H: Eu separei outro trecho aqui de uma entrevista nossa de dois anos depois e você fala exatamente isso: “Muitas vezes me sinto limitada, porque é sempre algo pré-estabelecido sobre ser trans”. Aí, mais para baixo, você virou e falou assim: “Eu sou sempre amiga de alguém, nunca tenho enredo próprio. Quero fazer minha protagonista”. Você meio que manifestou várias coisas que vieram, né?
GL: Exatamente. E aí vem. De repente, eu ganho uma protagonista e tô fomentando essa vilã aí também. Eu acredito muito na lei da atração, “O Segredo” é a minha filosofia de vida.
H: Eu queria falar só um pouquinho mais da Viviane. Por que você acha que essa personagem caiu tanto no gosto do povo?
GL: Cara, primeiro que eu tive muita abertura para poder trocar com os autores e dar o meu ponto de vista sobre o que vinha. Um dos pactos que eu fiz comigo e com eles foi que tudo bem a gente falar sobre o tema, acho que é interessante, é importante numa novela das 9. Tudo bem que a transfobia surja, apareça, mas a Viviane não vai sofrer com a transfobia. A Viviane vai devolver na mesma hora a transfobia. A transfobia não vai ficar com ela.
Uma cena icônica é quando o Bagdá chama ela pelo nome morto na frente do Leonardo. Essa cena tava marcada para acontecer da seguinte forma: o Bagdá chamaria a Vivi no canto e falaria baixo para ela. Quando eu li a cena, eu entendi que era alto e tudo mais, que que ia acontecer na frente de todo mundo. E eu falei: “Não, não, essa cena não pode ser assim. Deixa ele chamar ela alto mesmo para que ela constranja ele, para que ela devolva o constrangimento para ele”.
Acho que o sucesso dela vem primeiro pelo enredo para além de trans, que o Aguinaldo (Silva) escreveu perfeitamente essa questão dela ser querida pela comunidade, dela cuidar das pessoas, dela ser uma representatividade boa dentro da Chacrinha. E, segundo, pelo fato de eu ter tido a oportunidade de colaborar junto com eles na construção dessa personagem. Quando a gente tem a oportunidade de humanizar a Viviane, ela foi para além das questões que envolviam a condição de vida dela. Ela era humana.
Hoje, quando eu sou parada na rua, as pessoas me chamam pelo meu nome: “Você é a Gabriela Lorran, a atriz que fazia a Viviane”, “Ó, a farmácia tá fechada?”, “Ó, não vem me dar remédio falso não, hein”. Como a Viviane conseguiu superar a própria condição de vida, ela se tornou humana. As pessoas conseguiam enxergar ela e torcer.
Porque gente, pelo amor de Deus, em 2026, a gente tem um Brasil inteiro torcendo, parte para que ela ficasse com o Leo, parte para que ela ficasse com o Angélico, isso é muito legal. É muito transformador. E essa personagem em Amor À La Carte também, é uma personagem cis. Ter a oportunidade de vivenciar essa personagem nesse lugar também é gostoso. E mostra que nós somos capazes.
Protagonista, mocinha ou vilã, Gabriela Loran está pronta para o seu próximo capítulo








