Aos 22 anos, João Pedro Mariano está vivendo um sonho que até pouco tempo atrás lhe era inimaginável. Ainda no ano passado, ele fez sua estreia no audiovisual como o protagonista de Baby (leia a crítica aqui), o romance queer de Marcelo Caetano (Corpo Elétrico) que foi um dos filmes brasileiros mais elogiados de 2024 e que, de uma hora pra outra, catapultou o jovem ator mineiro para o epicentro do circuito internacional de cinema. Agora, depois de ter seu rosto exibido nos principais festivais do mundo, ele finalmente está pronto para dar os próximos passos de uma carreira que já começou com o pé direito.
“A minha primeira viagem internacional foi direto pra Cannes. É uma coisa de outro mundo, ainda tô tentando entender o que é isso”, comenta, ainda extasiado com a estreia do filme na Semana da Crítica do 63º Festival de Cannes, em maio do ano passado. “É uma sensação que parece que a ficha nunca vai cair.”

João Pedro Mariano nasceu em Guaxupé, uma cidade com pouco mais de 50 mil habitantes no interior de Minas Gerais. Sua jornada em busca da carreira de ator não foi fácil. Neto de uma lavadeira e filho de uma faxineira, ele se mudou sozinho para São Bernardo do Campo e começou a estudar teatro em São Paulo. Por dois anos, João sobreviveu na maior metrópole do país com uma bolsa de R$ 500 por mês.
Para interpretar Baby, ele participou de uma bateria de testes e acabou conseguindo o papel depois de vencer outros mais de 1.800 candidatos. Abandonado pela família de sangue, o personagem tenta sobreviver sozinho em São Paulo quando se apaixona por Ronaldo (Ricardo Teodoro), um cara mais velho e experiente nas ruas da metrópole. Em sua interpretação, Mariano alterna com cuidado os sentimentos de vulnerabilidade, revolta, coragem e obstinação do protagonista, causando empatia quase imediata pelo jovem.
A história do casal e a química dos atores conquistou o público e fez o filme rodar os cinemas do Brasil e de boa parte do mundo. Enquanto João Pedro Mariano fala com a Híbrida, Baby ainda era exibido em países como França e Taiwan, onde ganhou o título Nós amamos uma vez. “Recebi mensagens no Instagram de formas que eu nem sei ler. Eu não sabia se eles estavam amando ou se eles estavam odiando o filme”, ri. “Era feito em Google Tradutor, assim. Mas é isso que eu acho bonito de Baby. Como o amor desses dois homens atravessa fronteiras.”
Qual o próximo papel de João Pedro Mariano?
Enquanto Baby começa a entrar no mundo do streaming, onde já está disponível na Apple TV+, João Pedro Mariano começa a dar os passos seguintes da carreira. Seu próximo trabalho é como o Luca de Tremembé, série ainda inédita do Prime Video que aproveita a obsessão coletiva por histórias de true crime para explorar os personagens que passaram pelo presídio mais famoso do Brasil, como Alexandre Nardoni, Robinho e Cristian Cravinhos, ex-namorado de Suzane von Richthofen.
Abaixo, João Pedro Mariano conversou com a Híbrida sobre como tem sido o after de sua estreia meteórica no cinema e os sonhos que agora ousa ter para o futuro.
HÍBRIDA: O que você acha que é o diferencial de Baby? O que tem ali que você não tinha visto até então em outros filmes?
JOÃO PEDRO MARIANO: O que mais me toca é o amor sem julgamento. Esses personagens são gays, queers, mas têm camadas. Não é só a personalidade que a gente vê lá fora, que a pessoa gay é apenas gay.

H: Na nossa última entrevista, você comentou que teve um Ronaldo na sua vida. O processo do Baby te ajudou a rever essa relação de alguma forma?
JPM: Quando vivi essa relação com meu Ronaldo, eu via tipo “ai, ele sugou a minha juventude”. Eu não entendia muito, mas no fundo ele me fez ser o que eu sou hoje. Comecei a pensar muito sobre essas pessoas que passam pelas nossas vidas e realmente transformam a gente. Quando vemos relações entre gerações diferentes, sempre pensamos que o mais novo quer descobrir o mais velho, porque ele tem bagagem, vai trazer coisas… Mas, muitas vezes, é o contrário também. Porque a gente tem esse ar da juventude, esse peito aberto… Eu me reencontrei com ele dias atrás e ele falou “Cara, até hoje, às vezes, você mexe comigo”. E, pra mim, não é isso.
O amor é uma coisa suja, que chega, te bagunça e vai embora, e te muda, e você fica sem chão
H: Sua carreira começou no teatro. Ter o primeiro trabalho no audiovisual como um rapaz gay, num romance queer, te dá algum medo ou apreensão? Ou isso não é mais uma questão para os atores?
JPM: Muitas pessoas batalharam pra que a gente possa ter liberdade no que faz. Mas eu fico tão feliz quando recebo testes e vejo que tão mandando testes de personagens gays. Isso é foda, sabe? Eu acabei de gravar uma série na Amazon Prime. Não posso falar muito, mas eu faço um personagem gay também. Muita gente não pode ser viado ainda, então eu sinto uma felicidade muito grande de estar ocupando esse lugar. Quero muito fazer filme de viado, filme pra gays… Quero mesmo! Mas tenho medo de não trabalhar também. Eu tenho certeza da qualidade do meu trabalho e sei que posso fazer vários papéis, mas sinto que é diferente do que as pessoas veem sobre mim. Isso é muito doido.
H: Você chegou a receber cantadas por causa do Baby? Imagino que deve ter alguns caras mais velhos que viram o filme e ficaram interessados…
JPM: Muito! Meu Instagram agora está dominado por essa galera mais velha. É muito bonita a forma como eles me abordam. “Nossa, você é estonteante.” “Nossa, que sorriso esbelto.” Tem umas pessoas que são mais desagradáveis, acontece muito também. Baby me colocou nesse lugar de 8 ou 80, sabe? Já recebi muitos nudes no Instagram. Do nada, sabe? Mas eu tento ficar com as partes boas, que são essas pessoas que me abordam com muito carinho. Tô bem orgulhoso de Baby ter sido meu primeiro trabalho.
Ou as pessoas são muito fofas ou sexualizam muito esse personagem, e logo sexualizam muito o João Pedro também
H: Que fofo! Eu li que sua mãe é empregada e sua avó era lavadeira em Guaxupé. Como a sua cabeça se ajustou a essa mudança na sua carreira? A ficha já caiu?
JPM: É muito doido, porque acho que todo artista começa com muito medo e desespero. Eu sou criado por uma família com uma condição financeira muito baixa. Agora que a gente tá conseguindo dar uma erguida, graças a Deus. Então eu sempre acreditei muito que ia dar certo. De certa forma, as coisas aconteciam pra mim numa fluidez muito bonita. Era pra ser, eu acredito muito nisso. Era o caso de Baby. Do nada, o Marcelo me liga e fala “Parabéns, você é o Baby”. Eu lembro de ligar pra minha mãe e falar “Mãe, eu vou fazer o Baby!”. Foi uma coisa de tipo “Meu Deus, a gente tá vencendo!”, porque eu fui o primeiro a conseguir estudo na minha família, o que já é um privilégio. Aí vai pra Cannes, vai pra França… Graças a Deus, eu tô conseguindo pagar minhas contas com o meu trabalho, com a minha arte.
H: Nossa, então você já tá muito no lucro! (Risos)
JPM: Eu fico muito grato. Pra minha mãe, é uma alegria do caramba. Eu lembro que chorei muito quando passei pra Cannes e saiu na Folha de São Paulo. A patroa dela assina o jornal, aí ela me mandou um áudio lindo falando “Meu Deus do céu, fui abrir a folha do jornal e tava você enorme, tava sua foto imensa na capa!”. Então eu sinto que já tô conquistando coisas muito lindas, que vai ser pra minha vida toda.

H: Você tem algum sonho específico que queira manifestar agora para a sua carreira?
JPM: Uma pessoa com quem eu tenho muita vontade de trabalhar é o Matheus Nachtergaele. A arte dele é a coisa mais linda do mundo. Um dia eu vou fazer isso… Um sonho que tá surgindo agora e eu não tinha antes, mas você acredita que eu tô tendo vontade de ir pra Globo? Fico pensando na minha avó, na minha mãe, nas minhas tias que são as pessoas que ficam assistindo novela o tempo todo… Ia ser tão incrível se elas ligassem a televisão e, tipo, me vissem lá… Tô querendo muito me aventurar em novela, ver como é esse universo novo, experimentar essas outras pessoas, esse jogo… Acho que deve ser muito gostoso também.








