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22 ago 2019

O QUE MUDOU NOS 50 ANOS DE STONEWALL?

COMO A REVOLUÇÃO LIDERADA POR MARSHA E SYLVIA ECOOU ATÉ A AMÉRICA DE TRUMP

Muitas histórias já foram narradas sobre a noite de 28 de junho de 1969 e o que rolou em um bar localizado na Christopher Street, parte baixa de Manhattan. O Stonewall Inn foi palco para uma revolta que eclodiu a partir de um confronto entre os frequentadores LGBTs do bar e a polícia truculenta de Nova York, dando origem ao que, hoje, conhecemos como marchas do Orgulho LGBT e o movimento politicamente organizado como um todo.

Mas para que nós possamos entender quais fatores convergiram para transformar uma briga de bar em um dos maiores movimentos por direitos civis do mundo, é preciso entender o contexto histórico-cultural pelo qual os Estados Unidos passavam em 1969.

Nos anos de 1960, um momento de transição atingiu o mundo. Após a II Guerra Mundial, as duas potências vencedoras, Estados Unidos e União Soviética, começaram a construir um mundo “bipolar”. Exercendo influência sobre diferentes regiões do globo, elas criaram a chamada “Guerra Fria”, em que cada conflito ao redor do mundo tinha uma de suas partes apoiadas por umas dessas duas grandes potências, que evitavam a todo custo um confronto direto. Ao mesmo tempo, uma guerra de quase se arrastava há quase uma década e meia no Vietnã.

Fachada do Stonewall Inn, palco da revolução que começou o movimento do Orgulho LGBT nos EUA (Foto: Divulgação)
Fachada do Stonewall Inn, palco da revolução que começou o movimento do Orgulho LGBT nos EUA (Foto: Divulgação)

Internamente, os EUA também vinham sofrendo grandes mudanças. Os índices de natalidade haviam aumentado em níveis consideráveis desde a Grande Guerra e a economia florescia, graças às políticas do New Deal e seu Estado de Bem-estar Social. O movimento hippie pregava a paz, a convivência harmônica entre os seres e estava experimentando uma liberdade sexual, proporcionda entre outros fatores por avanços científicos como a pílula anti-concepcional, até então desconhecida. Ao mesmo tempo, o movimento negro começa a se organizar politicamente contra a discriminação imposta pelas leis Jim Crow e em busca dos direitos civis que lhes foram negados durante a abolição.

Nesse contexto, em uma noite comum do início do verão de 1969, em Nova York, explode uma verdadeira revolta que duraria por dias nas ruas de Greenwhich Village, eclodindo em uma marcha até o Central Park. Tudo começou quando a polícia invadiu o Stonewall Inn, um bar administrado pela máfia da região, para receber o “arrego”, a propina paga pelos donos do estabelecimento para que ele continuasse funcionando. Ali, os oficiais começaram a expulsar e prender os frequentadores do bar, de acordo com os relatos de Sylvia Rivera, narrados em entrevista à Eric Marcus, em dezembro de 1989.

Segundo Sylvia, que ajudou a iniciar e fortalecer o movimento ao lado de Marsha P. Johnson, “o Stonewall não era um bar para drag queens”. “As pessoas dizem ‘era um bar de drag queens e de negros’. Não, esse era o Washington Square Bar. Você até poderia entrar no Stonewall se eles te conhecessem, mas só certo número de drags eram permitidas naquela época.”

Você até poderia entrar no Stonewall se eles te conhecessem, mas só certo número de drags eram permitidas naquela época

– Sylvia Rivera

É importante notarmos nesta parte do depoimento que, mesmo em uma região considerada submundo de Manhattan, havia muito pouco espaço para mulheres trans e drag queens. Naquela noite, quando a polícia invadiu o bar, Sylvia diz que os frequentadores começaram a se aglomerar do outro lado da rua e a se indagar: “Por que nós temos que continuar suportando isso?”. Nesse momento, ela conta, “os níqueis, dimes e quarters (moedas de dólar) começaram a voar” em cima da polícia. “Mas por que isso? Por que as pessoas fizeram isso?” pergunta Marcus. “O arrego! Esse era o arrego.”

De fato, essa passagem das moedas lançadas na polícia ganhou notoriedade na história. Em um artigo da BBC sobre os 50 anos de Stonewall, eles narram: “13 pessoas foram detidas. Algumas, ao serem levadas para a viatura, decidiram provocar os policiais fazendo caras e bocas para a multidão. A polícia então começou a usar de mais violência para fazê-las entrar nos carros. A partir daquele momento, a multidão fora do Stonewall Inn começou a jogar moedas nos policiais, escalando depois para garrafas e pedras. Também tentaram virar de cabeça para baixo uma viatura”.

Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera durante marcha em prol dos direitos LGBTs, em Nova York (Foto: Reprodução)
Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera durante marcha em prol dos direitos LGBTs, em Nova York (Foto: Reprodução)

O Inspetor Seymour Pine, responsável pela operação, não esperava essa retaliação e não tinha reforços para conter a escalada da revolta. A partir desse momento, a comunidade LGBTQ+ dos bares da região começou a se juntar a quem estava pelos arredores da Sheridan Square Park, em frente ao Stonewall, e começou um ato que duraria seis dias. A aglomeração culminou na primeira Marcha do Orgulho LGBTQ+, que caminhou mais de 50 quarteirões até o Central Park. Era a primeira vez que a comunidade saía do gueto e se apresentava abertamente para a sociedade conservadora americana, em toda a sua diversidade.

Muito desse sentimento de revolta foi alimentado pelas manchetes dos jornais da época e pela forma como a revolta foi tratada pela mídia da cidade de Nova York. Segundo Gillian Brockell, em artigo para o jornal The Washigton Post, uma das características mais chocantes dos eventos ocorridos naquela ocasião foi o quão ofensiva era a cobertura midiática. “Homo Nest Raided, Queen Bees Are Stinging Mad” (“Ninho gay invadido, abelhas rainhas estão ferroando como loucas”), foi a manchete do The New York Daily News. “A polícia teve dificuldade de colocar uma sapatão no carro da patrulha”, era como o jornal Village Voice descrevia parte dos acontecimentos daquela noite.

Esses artigos e manchetes extremamente discriminatórios e pejorativos, presentes em grande parte da mídia novaiorquina nos dias que se seguiram à revolta, contribuíram para alimentar ainda mais o sentimento de indignação da comunidade. Alguma coisa era preciso ser feita para mudar essa realidade.

UNITED STATES - JUNE 28:  Stonewall Inn nightclub raid. Crowd attempts to impede police arrests outside the Stonewall Inn on Christopher Street in Greenwich Village.  (Photo by NY Daily News Archive via Getty Images)
UNITED STATES - JUNE 28: Stonewall Inn nightclub raid. Crowd attempts to impede police arrests outside the Stonewall Inn on Christopher Street in Greenwich Village. (Photo by NY Daily News Archive via Getty Images)

Foto: Divulgação

DA MARCHA DE STONEWALL À AMÉRICA DE TRUMP

O confronto entre a polícia e os LGBTs de Stonewall seria apenas o começo da organização desta comunidade como um grupo com agenda politica e social. Logo em seguida, diversos coletivos começaram a se organizar para avançar na criação de mecanismos legais que protegessem essas pessoas dos ataques do Estado e garantissem o mínimo de liberdade para esses indivíduos.

Nesse período, surgiram grupos como a GLF (Gay Liberation Front), a GAA (Gay Activists Alliance), a Lambda Legal (primeira organização jurídica a se formar em defesa dos direitos homossexuais) e um coletivo chamado STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries), criado por Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, na Universidade de Nova York. O objetivo principal dessas associações era fortalecer a comunidade e aprovar a Gay Rights Bill, uma petição de projeto de lei feita pelo grupo de drag queens ao qual Sylvia e Marsha pertenciam, na cidade de Nova York.

Esse movimento em torno da petição começou em 1970, mas a lei contra a discriminação de pessoas LGBTQ+ em Nova York só seria aprovada em 1986. Na entrevista citada acima, três anos após tal aprovação, Sylvia se declarou ressentida com a comunidade. Para ela, as drag queens e transsexuais desenvolveram o projeto e trabalharam muito para que ele fosse aprovado, mas ainda não receberam o devido reconhecimento por isso. Pelo contrário, foram preteridas por uma comunidade massivamente gay, masculina e branca. Em suas próprias palavras: “Drag queens fizeram isso. Nós fizemos isso para os nossos irmãos e irmãs. Mas poxa, não fiquem nos colocando no segundo plano e nos esfaqueando pelas costas… Isso é o que dói de verdade. Isso é o que nos entristece”.

Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson fundaram o coletivo STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries), formado por travestis e prostitutas em busca de direitos nos EUA (Foto: Reprodução)
Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson fundaram o coletivo STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries), formado por travestis e prostitutas em busca de direitos nos EUA (Foto: Reprodução)

Desde então, a comunidade LGBTQ+ norte-americana logrou importantes vitórias, mas também amargou duras derrotas. Na sequência de Stonewall, em 1973, o estado de Maryland aprova uma lei que proíbe e bane oficialmente a união civil de pessoas do mesmo sexo no estado. No mesmo ano, contudo, a American Psychiatric Association retira a homossexualidade da lista de “doenças mentais” do seu “Manual de Estatísticas e Diagnósticos de Doenças Mentais” DSM-II. Um ano depois, Kathy Kozachenko, lésbica, é a primeira pessoa homossexual assumida eleita a um cargo público na Câmara de Vereadores da Cidade do Michigan.

Kathy Kozachenko fotografada em 2015 segurando um retrato de sua família (Foto: Chris Goodney | Bloomberg)
Kathy Kozachenko fotografada em 2015 segurando um retrato de sua família (Foto: Chris Goodney | Bloomberg)

Em 1975 é apresentado ao Congresso americano o primeiro projeto de lei federal de uma Gay Rights Bill que trataria discriminação com base na orientação sexual. O projeto chega até a Comissão de Constituição e Justiça, mas nunca foi votado. Três anos depois, com a eleição de Harvey Milk para a Câmara de Supervisores, em São Francisco, e todo o trabalho realizado por ele acerca dos direitos LGBTQ+, a comunidade começa a crescer em número e importância social. É também nesse ano que Gilbert Baker cria o desenho da Bandeira do Arco-Íris e a transforma no símbolo universal da comunidade.

Harvey Milk durante comício em São Francisco (Foto: Reprodução)
Harvey Milk durante comício em São Francisco (Foto: Reprodução)

Durante o governo de Ronald Reagan, a década de 1980 e o início dos anos 90 foram especialmente difíceis para LGBTs. Com a epidemia de AIDS se espalhando em números alarmantes e pouca ou nenhuma ação do governo americano para subsidiar pesquisas e tratamentos. A comunidade começou a se unir para lutar contra o lobby da indústria farmacêutica, que não apresentava nenhuma solução viável de tratamento além do AZT e seus inúmeros efeitos colaterais, e ainda lutava para impedir que medicamentos produzidos em outros países chegassem aos pacientes contaminados. A situação foi representada no filme “Clube de Compras Dallas” (Jean-Marc Vallée, 2013), em que Matthew MacConaughey interpreta um eletricista heterossexual que contrai o HIV e passa a contrabandear os remédios usados em outros países, até então proibidos pela agência de vigilância sanitária americana.

Matthew McConaughey e Jared Leto em "Clube de Compras Dallas" (Foto: Divulgação)
Matthew McConaughey e Jared Leto em "Clube de Compras Dallas" (Foto: Divulgação)

Em 1993, o então presidente Bill Clinton assina uma lei militar que proibia indivíduos abertamente homossexuais de servirem às forças armadas, mas ao mesmo tempo também proibia a discriminação de gays “no armário”. Era o nascimento da “Don’t ask, don’t tell” (“Não pergunte, não responda”), que seria repelida pelo Congresso apenas em 2011.

Em 1996, Clinton assina uma lei chamada Defense of Marriage Act, que proíbe o reconhecimento legal de casamentos entre pessoas do mesmo sexo por qualquer órgão federal, além de definir o matrimônio como uma “união legal entre um homem e uma mulher, como marido e esposa”.

Foi apenas em 2000 que o estado de Vermont voltaria a legislar sobre esse tema e legalizaria oficialmente a união civil de pessoas do mesmo sexo no estado, sendo o primeiro da federação americana a fazê-lo. O direito seria ampliado a nível nacional somente em 2015, a partir de uma decisão da Suprema Corte americana, durante o governo Barack Obama.

Barack Obama assinando o ato que repeliu a política do "Don't Ask, Don't Tell", em 2010 (Foto: JEWEL SAMAD | AFP | Getty Images)
Barack Obama assinando o ato que repeliu a política do "Don't Ask, Don't Tell", em 2010 (Foto: JEWEL SAMAD | AFP | Getty Images)

Com a eleição do governo ultraconservador de Donald Trump, em 2016, as conquistas dos anos anteriores passaram a correr riscos e as vitórias em relação a outras demandas por direitos ficaram ainda mais escassas. Logo após tomar posse na Casa Branca, Trump anuncia através do Twitter que “o governo dos Estados Unidos não aceitará ou permitirá que indivíduos transgênero sirvam em quaisquer unidades do exército americano”.

Após muita discussão acerca dessa proibição, ela foi repelida duas vezes pela Justiça Federal americana, até ser suspensa pelo presidente. Contudo, em março do ano passado, Trump editou uma nova regra que desqualificaria pessoas trans “com histórico e diagnóstico de diforia de gênero (indivíduos cuja situação requeira tratamento médico substancial, incluindo medicações e cirurgia) para o serviço militar, exceto sob limitadas circunstâncias”. Em janeiro, a Suprema Corte americana confirma essa proibição editada por Trump e ainda acrescenta que aqueles inscritos nas Forças Armadas somente baseados no gênero que lhes foi designado no nascimento.

Bolsonaro e Trump: unidos pelo ódio a LGBTs (REUTERS | Kevin Lamarque)
Bolsonaro e Trump: unidos pelo ódio a LGBTs (REUTERS | Kevin Lamarque)

Esses relatos e retrocessos nos mostram que a história do movimento LGBT foi construída a partir de muita luta, e que pessoas trans, negras, latinas, lésbicas e drag queens sempre estiverem à frente dessas conquistas, mesmo que grande parte da mídia tenha higienizado essas histórias com homens gays, brancos e que seguem certo padrão social. Tal qual toda história oficial, há uma grande tendência de apagarmos ou simplesmente “esquecermos” figuras que não obedecem à norma de uma sociedade branca e eurocêntrica, mesmo quando essa história é sobre uma população marginalizada e oprimida.

Nosso papel é parar de reproduzir esse tipo narrativa, aprofundando e valorizando as conquistas e o trabalho de quem realmente merece. Por isso, nesses 50 anos de Stonewall, nós da revista Híbrada prestamos uma homenagem e dedicamos nossos agradecimentos a Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson. Sem elas e outras tantas bichas e travestis pretas, asiáticas, latinas e anônimas, nós não estaríamos aqui hoje falando sobre esse assunto e celebrando o mês do Orgulho LGBT.

LUIZ GUILHERME OSÓRIO

LUIZ GUILHERME OSÓRIO

Formado em Internacional Business pela UCLA e Comunicação Social pela UFRJ. Passou um período pela faculdade de Direito da UFJF, trabalhou na Revista Seleções e hoje trabalha como especialista em Direitos Autorais e Propriedade Intelectual na internet em uma empresa de tecnologia em Los Angeles. É gay, casado e feliz, e tenta fazer tudo ao seu alcance para contribuir para o benefício de todos os seres sencientes do universo.

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