*Texto original de Laura Mills

Na “História Queer” dessa semana, nós nos movemos da primeira mulher queer reconhecida na Grécia antiga para uma das mais notáveis em toda a história norte-americana recente. Mas antes de discutirmos Marsha P. Johnson, devemos brevemente falar da história LGBT nos Estados Unidos e como ela tem sido traduzida para os dias modernos. Essa tradução continua nosso tema sobre a eliminação da existência queer através do tempo e, neste caso, não somente o apagamento vindo de forças externas, mas dentro da própria comunidade LGBT+.

Marsha foi uma mulher transgênere negra que trabalhou como profissional do sexo e drag queen durante a maior parte de sua vida adulta. Essas partes de sua identidade significaram que ela estava agrupada a alguns dos mais vulneráveis setores sociais daquela época. Além disso, ela era também uma ativista em várias organizações, como a Sweet Transvestite Action Revolutionaries (STAR) [“Revolucionárias da Doce Ação Travesti”, em tradução livre], que trabalhava para tirar transgêneres das ruas, ajudando outras pessoas, mesmo que ela própria estivesse frequentemente nesta posição.

Marsha entregando panfletos de militância queer na NYU, durante a década de 1970 (Foto: Reprodução)
Marsha entregando panfletos de militância queer na NYU, durante a década de 1970 (Foto: Reprodução)

Inclusive, uma das realizações das quais ela mais se orgulhava foi a abertura do STAR, refúgio fundado em parceria com Sylvia Rivera, outra mulher negra e transgênere, que terá seu próprio artigo aqui em algum momento. Marsha era a “mãe” do lar STAR e, mesmo sem muito dinheiro a oferecer, continuava sendo generosa. E embora sua generosidade e o fato de ajudar desabrigados transgêneres a saírem das ruas fossem seus maiores motivos de orgulho, ela ficou mais conhecida pela sua participação nas Revoltas de Stonewall, um momento histórico complexo, que merece um artigo separado, mas em consideração aos leitores que não sabem o que aconteceu, nós faremos um rápido resumo.

Marsha P. Johnson e a Revolta de Stonewall

Em 28 de junho de 1969, a polícia invadiu Stonewall Inn sem avisar. O Stonewall Inn foi um bar gay com invasões regulares e tanto seus frequentadores quanto seus funcionários estavam acostumados com isso. Mas naquela noite, quando a polícia tentou prender as pessoas do bar, algo mudou: elas lutaram. Liderando essa briga – e alegadamente atirando o primeiro copo de vidro contra as viaturas policiais – estava Marsha P. Johnson.

Marsha P. Johnson durante protestos de Nova York, na década de 1970 (Foto: Reprodução)
Marsha P. Johnson durante protestos de Nova York, na década de 1970 (Foto: Reprodução)

Este foi um dos protestos mais divulgados da história queer norte-americana e também um momento chave na luta pelos direitos LGBT, tirando a briga de um lugar fechado com vozes abafadas para o meio da rua, com direito a megafones e cartazes de protesto.

Logo, quando o diretor alemão Rolland Emmerich adaptou essa noite histórica para as telonas, com o filme “Stonewall” (2015), era de se imaginar que ele teria material mais do que necessário para não precisar inventar coisas. Evidentemente, ele não pensou assim. Ao invés de se aprofundar nas ricas histórias de pessoas que realmente existiram, Rolland trilhou o caminho mais usado por Hollywood e embranqueceu a história o máximo possível. Ele criou um personagem gay, branco e cisgênero chamado Danny Winters, fazendo com que o filme focasse em seus problemas e o mostrasse arremessando o primeiro tijolo da revolução. Um momento monumental foi roubado da pessoa que provocou aquilo.

Apesar de todas as suas realizações, o filme não foi a primeira vez que Marsha P. Johnson foi empurrada do caminho para que homens brancos e cisgêneros roubassem a cena no movimento LGBT. Ainda viva, vários homens gays tentaram empurrar drag queens e pessoas transgêneres para fora da comunidade, mantendo-as o mais longe possível do foco. Eles acreditavam que pessoas como Johnson dariam “uma imagem ruim ao movimento” e tentaram banir “travecos” das Paradas de Orgulho, em 1978.

Marsha e Sylvia Rivera durante a Parada de Orgulho Gay de Nova York, em 1978 (Foto: Reprodução)
Marsha e Sylvia Rivera durante a Parada de Orgulho Gay de Nova York, em 1978 (Foto: Reprodução)

Em resposta a essa tentativa, Marsha P. Johnson junto-se a Sylvia Rivera, segurando um cartaz e andando em frente à marcha organizada para aquele ano, liderando a Parada. Ainda que seja fácil fingir que esta atitude preconceituosa esteja no passado, está claro pelo filme de Rolland que não é este o caso. E, desta vez, Marsha não está viva para se defender.

A vida de Marsha P. Johnson: de Andy Warhol ao fundo do Rio Holland

Estar fora do armário e ser público sobre sua identidade queer é revolucionário até os dias de hoje. Mas para Marsha, vivendo na época em que ela viveu, foi um ato de extrema bravura. Ela andava na rua completamente de drag e era reconhecida por ser aberta sobre sua identificação como pessoa queer, algo que não passava despercebido, mesmo que parte da atenção recebida fosse negativa.

O próprio Andy Warhol a colocou numa série de retratos chamada “Ladies and gentlemen”, sobre pessoas transgêneres. Entretanto, ela não pôde ver a exposição, já que o lugar onde o evento foi sediado não deixou que alguém com sua aparência entrasse. Ficou ainda mais claro que ela era importante para empurrar o movimento à frente, mas um certo código conservador de “respeitabilidade” ainda a queria bem longe da esfera pública.

Marsha P. Johnson fotografada por Andy Warhol para a série "Ladies and gentlemen" (Foto: Reprodução)
Marsha P. Johnson fotografada por Andy Warhol para a série “Ladies and gentlemen” (Foto: Reprodução)

Não poderia estar mais óbvio que não havia nenhuma razão para a comunidade LGBT tentar apagá-la, a não ser por racismo, classicismo, transfobia e sexismo. Ela teria sido uma incrível representante para o movimento, além de ter inspirado as pessoas ao seu redor. Tanto, que um grupo de amigos lançou em 2012 um documentário sobre sua vida, o“Pay it No Mind” (“Não se importe”), frase também usada por ela para descrever o que significava o P. de seu nome.

A frase também era usada para responder às pessoas que perguntavam sobre seu gênero. Ela era inteligente, inspiradora, vibrante e poderia facilmente ter sido o rosto perfeito do movimento LGBT, nos Estados Unidos. Marsha P. Johnson entendia tanto de desvantagem quanto de privilégio, e foi rejeitada dos holofotes porque não o possuía.

O máximo de reconhecimento que ela teve ainda em vida foi o documentário mencionado acima. Infelizmente, em 1992 e antes de o filme ser terminado, seu corpo foi encontrado no fundo do Rio Hudson, com a polícia afirmando o mais rápido possível que a causa de sua morte havia sido suicídio. Entretanto, seus amigos afirmam que ela não tinha tendências suicidas e relataram na época que ela havia sido assediada ali mais cedo, após a Parada de Orgulho Gay.

Eu tive tantos problemas; é um milagre ainda estar aqui!
– Marsha P. Johnson

Décadas depois, graças ao incansável lobbying de ativistas como Mariah Lopez, o caso foi reaberto como possível homicídio, em 2012. Ele não foi solucionado e, provavelmente, nunca será, principalmente devido à falta de interesse da polícia na investigação, quando ainda restavam evidências para serem descobertas.

Como uma mulher transgênere de cor, que participou e incitou revoltas e também foi uma profissional do sexo, Marsha P. Johnson é tudo que o movimento LGBT tem tentado fingir que não existe. Ela era tudo do que ela deveria ter orgulho.

Este texto faz parte do projeto Making Queer History cuja existência só é possível graças a doações. Se tiver interesse, você pode fazer uma doação única no Paypal ou tornar-se um Patrono.