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22 ago 2019

#ORGULHOTODODIA: TCHELO GOMEZ, TRANSFORMANDO SONHOS EM REALIDADE

DO ESTOURO COM O QUEBRADA QUEER À JORNADA TRIPLA DA ADOLESCÊNCIA, O CANTOR DIVIDE SUA HISTÓRIA NA SÉRIE #ORGULHOTODODIA

Aos 27 anos, Tchelo Gomez mora com a mãe e a irmã em Jandira, na Zona Oeste de São Paulo, e está em busca do seu primeiro lar sozinho. Formado em Publicidade e Propaganda, o jovem já morou em Barueri e encontrou na música uma forma de expressar suas paixões e vivências.

Hoje, além de tocar sua carreira solo, ele integra também o grupo LGBT negro Quebrada Queer, dono da primeira cypher gay da América Latina. Tchelo topou um bate-papo com a nossa equipe para o #OrgulhoTodoDia, um projeto da Revista Híbrida em parceria com a Safernet e apoio do Google e a Unicef Brasil, que visa diminuir os discursos de ódio na internet.

A música sempre esteve presente na vida de Tchelo. Ele, que começou a cantar no coral de uma Igreja Católica aos 14 anos, também possui referências musicais na própria família. Uma tia, chamada Tuca, é lembrada: “Ela canta e toca muito. Eu nunca toquei, mas a voz foi uma coisa que eu fui gostando e desenvolvendo até sentir necessidade de trabalhar mais com isso”.

Negro, periférico e gay, Tchelo sempre teve o sonho de viver da música. “Desde que comecei a cantar com o coral, questionava muitas coisas”. Naquela época, ele chegou a namorar uma menina na Igreja, o que inevitavelmente acelerou seu processo de autoconhecimento: “Por muito tempo, neguei minha sexualidade, como vários LGBTs. E, então, entendi que eu era gay. Não queria levantar bandeira, porque não achava necessário. Mas não negaria se me perguntassem”.

O despertar de sua nova identidade, ele conta, não chegou a ser um embate com os valores que aprendeu com a religião. “Para mim pecado é matar, roubar, não ser humilde. Fazer o bem, ser quem eu sou e sem prejudicar ninguém – tá tudo certo pra mim.”

Já decidido que cursaria Publicidade e Propaganda, ele se inscreveu em um curso técnico de canto numa ETEC de Artes, no Carandiru. Pela manhã, cursava a faculdade e, à noite, se dedicava à vocação de cantor. Quando precisou estagiar, a carga horária e o tempo de locomoção entre as diferentes zonas acabaram pesando: “Tranquei o curso e me prometi que, quando terminasse a faculdade, voltaria. Fiz contagem regressiva, me formei e entrei em contato com a ETEC para voltar”.

De volta à prática do canto, ele encontrou uma nova geração de estudantes que já escreviam, faziam vídeos, shows, participavam de saraus e de festivais. “As pessoas já seguiam a música como profissão. Então pensei: caso o hobby se torne profissional um dia, já estou me preparando”.

Tchelo investiu então em seu próprio trabalho autoral e, à medida que escrevia, descobriu suas questões raciais surgindo no papel. “No passado, eu neguei minha raiz. Fiz músicas mais pop e R&B para falar desse momento e do racismo que eu sofri, de questões sobre a minha tonalidade e sobre a minha família”.

O esforço lhe abriu portas e, de repente, ele estava fazendo pocket show na Casa 1, na Virada Cultural e nos desfiles de moda que sempre sonhou. Foi um pouco depois disso que ele começou a pensar sobre a possibilidade de se aprofundar no rap, depois de ter se aventurado rapidamente pelo ritmo em suas próprias músicas: “Queria conhecer, porque não me via fazendo esse tipo de música”.

A oportunidade apareceu através do convite para uma cypher com Danna Lisboa, rapper trans, Luana Hansen e Dory de Oliveira, duas MCs lésbicas. Apesar de terem chegado a gravar o encontro, ele nunca foi lançado. Ainda assim, a identificação com o rap aflorou. “Comecei a pesquisar e vi que não tinha nada só de gays negros. Então, pensei em fazer acontecer. E eu já conhecia alguns dos meninos”.

Tchelo convidou Harlley, Murillo e Guigo, hoje membros do Quebrada Queer, para um sarau em que artistas eram convidados para apresentações de 5 a 10 minutos no Espaço Vivarte, local de vivências artísticas onde a entrevista abaixo foi gravada. “Dei a ideia de uma cypher só com negros gays e me contaram que já havia rolado uma tentativa, mas não tinha acontecido”, conta.

Foi em um grupo no WhatsApp que os atuais integrantes do Quebrada Queer começaram a trabalhar na cypher, após uma movimentação de convites e identificações à primeira vista: “Nos demos superbem logo de cara”, comemora o cantor e publicitário, que já correu para montar uma apresentação do grupo.

Senti que meu trabalho solo estava sendo puxado para as questões de sexualidade. A cypher foi uma maneira de falar tudo o que estava engasgado

– Tchelo Gomez

O Quebrada Queer gravou então sua primeira faixa e laçou o clipe através do canal RapBox, no YouTube, um dos maiores desse nicho no Brasil. Três dias depois, a cypher já havia acumulado milhões de visualizações nas plataformas digitais e virado pauta nacional. Com o sucesso, viram os elogios, mas também as críticas, ameaças e ofensas que surgem quando se aborda gênero e raça na arte. Ainda assim, o QQ preferiu focar no amor.

“Recebemos desde histórias de luta contra o câncer até pessoas que tentaram se matar e ganharam força com a cypher para não fazerem aquilo. Coisas pesadas, mas que compensam por fazerem sentido para alguém. Em uma semana, o psicológico teve altos e baixos”, desabafa.

Hoje, Tchelo ocupa o lugar que sonhava desde pequeno, quando enfrentava a hipocrisia da Igreja pra cantar. E, com a realização, vieram novas responsabilidades e alegrias, como os relatos de pessoas que apanharam no trabalho ou tiveram amigos assassinados, mas encontraram consolo na sua arte. “Ao mesmo tempo que é legal, é um banho de água fria. Conversamos muito no Quebrada sobre o nosso poder de influência, porque é delicado. Sabemos da responsabilidade que temos ao influenciar pessoas. Eu tenho medo do close também. Não sabemos da vivência dos outros.”

Luiz Guilherme Osorio

VICTOR SORIANO

Victor é graduando do curso de jornalismo da ECO/UFRJ. É analista de inteligência digital e pesquisa corpo e arte. Trabalhou como gerente de branding, repórter e ilustrador de iniciativas como Revista Apuro e Portal Overdose e foi social media da websérie “Drag-se”.

 

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