É sob a lona do Circo Voador que Filipe Catto vai encerrar no Brasil o ciclo de Belezas são coisas acesas por dentro, seu disco-tributo a Gal Costa, que rendeu a bem-sucedida e criticamente aclamada turnê de mesmo nome. Marcado para o sábado do 5 de abril, o show de despedida acontece em uma das principais casas do Rio de Janeiro e promete fechar essa era com chave de ouro, graças à presença especial de Marina Lima no palco.

Lançado em setembro de 2023, menos de um ano após a morte da homenageada, Belezas são coisas acesas por dentro é uma coletânea das releituras de Filipe Catto para alguns dos maiores sucessos cantados por Gal Costa ao longo de sua carreira. A setlist inclui clássicos como “Tigresa”, “Vapor Barato”, “Vaca Profana” e “Lágrimas Negras”, assim como as mais ou menos recentes “Sem Medo Nem Esperança” e “Jabitacá”, do disco Estratosférica (2015). “Nada Mais”, por sinal, ficou entre as melhores músicas daquele ano na nossa lista de restrospectiva.

Com pegada rock’n roll na produção e o foco na voz límpida, dramática e dilacerante de Filipe Catto, o disco foi logo apontado como o melhor tributo póstumo feito até então ao enorme legado musical de Gal Costa. A turnê subsequente rendeu mais de 70 apresentações, passando pelas principais capitais do país, integrou o lineup de festivais como o Primavera Sound e cimentou de vez a posição da artista como um dos principais nomes de sua geração.

Depois de se despedir do Belezas são coisas acesas por dentro no Brasil, Filipe Catto ainda voa para o Japão, onde faz duas apresentações no KYOTOPHONIE Borderless Music Festival, nos dias 12 e 19 de abril. Mas antes disso tudo, ela falou com a Híbrida sobre essa jornada imersiva dos últimos anos e o que vem pela frente (spoiler: um novo disco de inéditas).

Filipe Catto (Foto: Gustavo Koch)

Leia abaixo a entrevista com Filipe Catto 

HÍBRIDA: O que sente encerrando esse ciclo, depois de ter passado tanto tempo imerso no repertório de Gal Costa? Essa experiência te mudou como artista?

FILIPE CATTO: Tem uma coisa que eu senti nessa turnê, como artista, que foi muito louca, porque eu acho que, para uma cantora cantar Gal, é que nem para um ator fazer Hamlet, fazer Shakespeare, sabe?! Eu acho que é uma experiência tão profunda de grandiosidade, no sentido de tu cantar um repertório que é tão gigante… É um trabalho também de amor à música brasileira, porque quando tu tá falando de Gal Costa, tá falando dos maiores compositores, das maiores compositoras de uma vida. Então a Gal Costa tem mil caras e ela conta a história do Brasil através da música.

Eu acho que foi um processo de amadurecimento, de muito aprendizado, de muita alegria também. Os shows foram sempre deliciosos. A sensação também de estar comungando desse repertório com o público foi muito profunda. E eu também tô muito feliz de estar indo para outros lugares, fazer o meu disco, mostrar e tocar as minhas coisas, sabe?! É muito bom esse show, mas até mesmo por ele ser um projeto muito caro para mim, muito delicado, a hora de encerrar é sempre muito importante e muito elegante.

H: Qual a importância de manter a memória de Gal Costa viva? Como esse repertório pode ser relevante para o Brasil de hoje?

FC: Gal Costa é uma artista muito emblemática. Acho que em nada ela precisaria de mim para manter a memória dela viva, essa memória sempre vai estar viva. Os discos que ela fez, a postura que ela teve, a figura, o emblema, tudo que ela propôs… É uma parada que já está cimentada na cultura. Na verdade, eu que me sinto lisonjeada de ter sido abençoada com o presente de cantar uma obra dessas, de conseguir fazer isso e de ter sido levada a sério.

Foi um show que a gente fez por puro amor e brincadeira. Tinha sido um chamado, não um “projeto de carreira”. Eu tava ocupada fazendo as minhas músicas e fui chamada para fazer um tributo a Gal e isso acabou virando um dos trabalhos mais legais e gostosos que já fiz. Mudou a minha vida para muito melhor. Me sinto uma artista mais realizada.

Me sinto lisonjeada de ter sido abençoada com o presente de cantar uma obra dessas, de conseguir fazer isso e de ter sido levada a sério

H: Como esse projeto influenciou o seu próximo disco e a fase seguinte da sua carreira? O que podemos esperar?

FC: Esse projeto nasceu no meio do meu outro disco de inéditas, no qual eu tava trabalhando desde 2018, 2019. Então, na verdade, ele foi perpassado por vários projetos. O Metamorfose, o Catto Live… Eu acho que meu trabalho novo é muito complexo. Ele precisou de muita análise, tive que enfrentar muitos demônios dentro de mim para conseguir materializar essas canções, que já estão prontas. Tanto o Metamorfose, quanto o Catto Live, quanto o Belezas foram lugares em que fui explorando coisas diferentes. No Belezas, acho que o que foi mais impactante e me ajudou muito no processo do novo trabalho foi ter uma experiência de palco. Sinto que me libertei muito. Mesmo eu sendo rata de palco ao longo de uma vida inteira, encontrei um lugar onde eu nunca tinha vivido tanta liberdade, prazer, sensualidade e sexualidade. Isso foi bem importante. Agora, sou uma artista com muito mais tesão (risos).

H: Teve algum momento que se destacou pra você nessa turnê? Algum show, performance, uma conexão especial com alguma música da setlist?

FC: Nossa, eu vivi cada coisa linda com esse projeto… Acho que a estreia foi muito impactante. Os dois shows do Cine Joia foram maravilhosos, o Primavera Sound… Eu nunca imaginei que ia tocar no Primavera Sound! Esse foi um projeto em que tudo foi muito especial. A gente estava tão feliz com tudo que estava acontecendo. Acho que todos os shows tiveram a sua beleza. Ter ido a Belém do Pará, Salvador… A gente conseguiu viajar o Brasil inteiro. Londres eu achei que foi muito especial, porque eu não esperava encontrar tanta gente lá. Eu nunca tinha tocado em Londres. Nunca tinha tocado em Amsterdã. Então foi um negócio que trouxe muitas aberturas. Nem sei te dizer… Foi tudo muito maravilhoso!

Filipe Catto (Foto: Gustavo Koch)
Filipe Catto (Foto: Gustavo Koch)

H: Como surgiu a ideia de convidar Marina Lima para o show de encerramento da turnê? O que pode adiantar dessa apresentação sem estragar a surpresa?

FC: A Marina foi uma pessoa que desde sempre esteve próxima a mim no processo do Belezas. A gente fez vários festivais e ela sempre me chamava pra ir pro palco com ela. Eu fiz um show lindo no Rio com ela, no encerramento da turnê Nas Ondas da Marina. Ela me pôs em um vídeo cantando de forma virtual no show novo dela. Ela também me chamou na Casa Natura pra cantar Gal. A gente deu um rolê e cantamos “Hotel das Estrelas” juntas. E é Rio de Janeiro, né. Pra mim, Rio de Janeiro é a Marina. É claro que ela é super de São Paulo, é uma pessoa que tem toda uma coisa… Mas eu chego no Rio e escuto a voz dela, não tem jeito. A Marina é um símbolo desse lugar. Eu nunca tive uma convidada, nunca fiz feat no Belezas, era uma coisa bem sem convidados. Mas como era o último e era no Rio e no Circo Voador, é óbvio que eu vou chamar a minha mãezinha, porque ela é o amor da minha vida. Eu acho que é um agradecimento a todo o carinho que a Marina sempre teve comigo. A generosidade dela. É uma celebração do final dessa turnê no Brasil. A gente vai ter alguns shows ainda fora do Brasil – vamos pro Japão… Mas no Brasil, o último show vai ser no Rio de Janeiro, no Circo Voador, com Marina Lima e Silvia Machete também, com o Invisible Woman, que eu acho que é um show lindo. Eu to muito feliz por tudo. Vai ser uma noite muito bonita e de muita gratidão. É isso, a gente tem que compartilhar as coisas. Estou muito feliz com tudo.

Os ingressos para o show de Filipe Catto no Circo Voador estão disponíveis aqui.