A pandemia do coronavírus tem se alastrado pelo Brasil e, de acordo com o Ministério da Saúde, já registra 428 casos confirmados e 4 mortes em território nacional até esta quarta-feira (18). Quase na mesma velocidade do contágio está a disseminação de fake news no País, que vai de curas mirabolantes a origens duvidosas e subnotificações.

LEIA TAMBÉM —> Como a chegada da PrEP ao Brasil pode mudar nossa vida sexual?

Pessoas com HIV são mais vulneráveis ao Covid-19? O PrEP pode ser usado no tratamento do coronavírus? Como isso pode afetar meus níveis de CD4?

LEIA TAMBÉM —> Conselho Federal de Medicina amplia regras para transição de gênero

Pensando nessa e em outras perguntas, falamos com o infectologista Vinícius Borges, conhecido online como o Doutor Maravilha. Voluntário no projeto “Lá Em Casa”, espaço de reabilitação e convivência para pessoas soropositivas na Casa Verde, em São Paulo, .ele responde essas e outras perguntas sobre as possíveis relações (ou não) entre HIV e coronavírus. Confira abaixo.

O infectologista Vinícius Borges, criador do canal Doutor Maravilha (Foto: Arquivo Pessoal)
O infectologista Vinícius Borges, criador do canal Doutor Maravilha (Foto: Arquivo Pessoal)

Pessoas com HIV são mais vulneráveis ao coronavírus, mesmo quando não têm mais de 60 anos?

Isso vai depender da condição de imunidade da pessoa. Com a contagem do CD4 maior que 350, o risco é o mesmo de quem não vive com o HIV. Quando a taxa for menor que 350, principalmente abaixo de 200, a pessoa já se encaixa como imunodeprimida e entra na população de risco para o Covid-19. 

O coronavírus pode ser transmitido através do sexo anal?

Já detectaram o coronavírus nas fezes, mas a transmissão por banheiro público ou vaso sanitário ainda não foi identificada. Ainda assim, a pessoa tem contato íntimo com outra quando pratica sexo anal, então não é recomendado. Quando você tosse ou espirra, podem ficar gotículas no corpo. Como a transmissão do coronavírus se dá pelo contato e pelo ar também, então nenhuma forma de sexo, beijo, abraço ou contato físico é recomendada entre pessoas com sintomas. 

Sou soropositivo. Preciso usar máscara contra o coronavírus, mesmo que esteja indetectável? 

A máscara só deve ser usada por quem já está com sintomas do coronavírus e for circular por ambiente com outras pessoas. Não há evidência comprovada de que ela proteja quem não está infectado. As outras máscaras, como a N95, são para profissionais da saúde que lidam diretamente com esse tipo de paciente. 

Se eu contrair o coronavírus, isso pode prejudicar o meu nível de CD4?

Sim, como acontece com qualquer infecção viral. Quando você tem uma gripe ou um resfriado forte, pode haver um aumento discreto na carga viral ou diminuição no CD4, o que é uma resposta esperada, e depois a taxa volta ao normal. A chance de isso ter um impacto no tratamento é muito pequena. O maior risco de morte que o paciente corre é pelo próprio coronavírus e não pelo aumento da carga viral.  

A medicação para HIV pode ser eficaz também contra o coronavírus?

Existem alguns estudos que indicam isso, mas ainda são preliminares. Eles ainda estão analisando na China e na Espanha se o Lopinavir/Ritonavir, antigamente conhecida como “Kaletra”, pode combater o coronavírus, mas precisam avaliar se há alguma reação. Não é algo confirmado. E também não podemos afirmar que quem usa PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) ou Pep (Profilaxia Pós-Exposição) está protegido.

Como posso melhorar minha imunidade contra o coronavírus?

Estão rolando várias receitas mirabolantes, mas é preciso ter cuidado porque ainda não há nenhuma evidência que isso funcione. Quem tem doenças crônicas precisa mantê-las controladas, mas ainda não há nenhuma prova de algum potencializador da imunidade. Uma alimentação saudável e variada já deve ter as doses necessárias de vitaminas necessárias. 

Minha medicação está acabando e estou com medo de buscar mais e contrair coronavírus. Como posso me proteger?

É necessário ver agora como os programas de ISTs de cada estado e município vão reagir. Realmente, é aconselhável evitar aglomerações de qualquer tipo. A questão do remédio é tomar enquanto tiver estoque e, quando for aos centros de distribuição, tentar manter cerca de 1 a 2 metros de distância das pessoas. Provavelmente, os órgãos vão se pronunciar em breve sobre um novo plano de contingência para as pessoas não ficarem desabastecidas. Também atente-se em utilizar as etiquetas respiratórias se for tossir ou espirrar na presença de outros e, para as pessoas com sintomas, usar máscaras.

Acompanhe novas medidas sobre o tratamento e abastecimento de medicações para HIV/Aids através do portal oficial do Ministério da Saúde.