Enquanto junho é conhecido internacionalmente como o Mês do Orgulho LGBTQ+, em agosto o Brasil celebra duas datas fundamentais para o movimento de mulheres lésbicas e bissexuais: o Dia do Orgulho, em 19, e o Dia da Visibilidade, em 29. Ambas as datas estão ligadas a episódios fundamentais para o avanço de direitos e representatividade para as mulheres da comunidade, representando lutas tanto pelo respeito da sociedade e do próprio movimento gay.

Obviamente, já existiam lésbicas na história do Brasil e do mundo muito antes da década de 1980, mas foi apenas a partir dali que houve uma organização política com demandas específicas para essas mulheres, em busca de suas liberdades individuais, sociais, econômicas e sexuais. Também é importante frisar que o movimento LGBT já despontava em outros países – principalmente naqueles que não estavam sob uma ditadura militar – e, mais de uma década antes, a Revolução de Stonewall já havia feito seu barulho se espalhar de Nova York para os Estados Unidos.

Criado em 1978, o Somos: Grupo de Afirmação Homossexual surgiu com o objetivo de lutar pelos direitos da comunidade LGBT, mas sua maioria de participantes homens acabou invisibilizando as pautas de mulheres lésbicas e bissexuais, que formariam depois o Grupo Ação Lésbica Feminista (Galf). Em seus nove anos de existência, ele foi fundamental para a criação dos dias da Visibilidade e do Orgulho Lésbico, como contamos abaixo.

Ato Público no dia 13 de junho de 1980 na frente do Teatro Municipal (Foto: Reprodução)
Ato Público no dia 13 de junho de 1980 na frente do Teatro Municipal (Foto: Reprodução)

 

O levante do Ferro’s Bar, o “pequeno Stonewall brasileiro”

Em 19 de agosto de 1983, mulheres do Grupo Ação Lésbica Feminista (Galf) deram início a um protesto no Ferro’s Bar, em São Paulo, que ficou conhecido como “o pequeno Stonewall brasileiro”. Assim como seu “primo” de Nova York, o local também não tinha um ambiente dos mais familiares, mas reunia um público cativo de comunistas e, mais tarde, de lésbicas.

No contexto da ditadura militar, ele se tornou um dos principais pontos de encontro e discussão de ideias pelas sapatões, até que um dia resolveu chamar a polícia para esse mesmo público por supostamente “atentar contra os valores da família”. O motivo foi a venda do “Chanacomchana”, um jornal focado no público lésbico e produzido de forma independente pelas mulheres do Galf que circulou entre 1981 e 1987 na capital paulista.

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#UmaLutaPorDia Nós falamos aqui sobre o Lampião da Esquina, mas durante a #Ditadura começaram a surgir vários jornais na imprensa alternativa, como uma forma de driblar a censura e a falta de informações reais na mídia. Era o caso da "Chanacomchana", uma publicação focada nos interesses da militância lésbica, que rodou de 1981 a 1987. . . Desenvolvido pelas ativistas do GAL – Grupo de Atividade Lésbica Feminista de São Paulo, o Boletim debatia questões como a legalização do aborto, relacionamentos entre mulheres, maternidade e a perseguição da Polícia Militar contra lésbicas. . . É importante lembrar também que foi por causa do "Chanacomchana" e a proibição de sua comercialização que houve o protesto do Ferro's Bar, conhecido como "o pequeno Stonewall brasileiro". #visibilidadelesbica #lgbthistory #lovewins #orgulholgbt #lgbt

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Liderado por Rosely Roth, ativistas do Galf invadiram o interior do Ferro’s e leram um manifesto lésbico contra a censura do bar, exigindo que a venda do jornal fosse permitida e que elas fossem respeitadas. “A proibição era um absurdo. Éramos, afinal, as principais clientes”, comentou Miriam Martinho, em entrevista de 2003 concedida à Folha de São Paulo.

Após o levante, o dono do Ferro’s Bar pediu desculpas às mulheres e permitiu a venda do “Chanacomchana” no local. Com a morte de Rosely, em 2003, a data foi fixada no calendário como o Dia do Orgulho Lésbico em homenagem à ativista e ao ato liderado por ela.

Dia da Visibilidade Lésbica e demandas políticas

Mais de 10 anos depois do levante no Ferro’s Bar, as mulheres lésbicas ainda demandavam visibilidade e respeito não só da sociedade geral, mas também dos outros movimentos sociais. O Galf, que já havia se desvinculado do grupo Somos por não ter suas pautas acatadas pela maioria de homens gays que formavam o coletivo, passou por outro rompimento oficial após  o III Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, em São Paulo.

Na ocasião, Rosely Roth afirmou que o grupo feminista não dava apoio efetivo às demandas de mulheres lésbicas. Durante a década anterior, elas já haviam “escandalizado” as feministas durante o II e o III Congresso da Mulher Paulista. Márcia Campos, do grupo político MR-8, por exemplo, chegou a afirmar: “Como pode uma mulher da periferia aceitar que o seu movimento seja dirigido por lésbicas, como querem as mulheres de classe média do movimento? A lésbica nega a sua própria condição de mulher, não pode fazer parte de um movimento feminino”.

Integrantes do Somos, do Galf e do SOS Mulher na sede do Galf, junho de 1983 (Foto: Um outro olhar | Reprodução)
Integrantes do Somos, do Galf e do SOS Mulher na sede do Galf, junho de 1983 (Foto: Um outro olhar | Reprodução)

É então que nasce o Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), o fórum mais representativo até então de pautas exclusivamente ligadas ao movimento de lésbicas e bissexuais, com mais de 100 participantes reunidas no Rio de Janeiro. Em agosto de 1996, elas estipularam o dia 29 daquele mês como o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica e a data foi fixada no calendário nacional desde então.

Em 2012, a ONU Mulheres reconheceu a importância da data “para que o movimento homossexual se comprometesse com a causa do lesbianismo”. Dois anos mais tarde, o Senale passou a se chamar Senalesbi, garantindo a inclusão de mulheres bissexuais.