Colocar os fones de ouvido e mergulhar em uma história só por áudio, sem imagens, é uma experiência por si só imersiva. E é exatamente essa a proposta da audionovela sáfica No espaço entre nós, lançada pela Audible: mergulhar o ouvinte nas vozes das protagonistas interpretadas por Alice Carvalho e Alanis Guillen.

A premissa é de Elayne Baeta, autora do livro O amor não é óbvio (Ed. Record, 2019). Aqui, nesse formato ainda pouco explorado no Brasil, ela traz uma ideia atual, que une passado e futuro ao contar a história de Maitê (Alanis), uma psicóloga especializada em viagens espaciais, que enfrenta o luto de perder a esposa e precisa se comunicar com Lilith (Alice), uma inteligência artificial que acredita ter uma consciência humana e se recusa a realizar a manutenção de um satélite por causa de um burnout.  

Como audionovela, a narrativa instiga a imaginação do público à medida que as cenas vão se desenhando na nossa cabeça, graças ao trabalho cuidadoso do roteiro de Inaê Luz, André Emídio e Rayane Taguti, que consegue a difícil missão de transformar imagens em sons. Os diálogos são o forte da narrativa, mas os pequenos movimentos com o jogo de onomatopeias e trilha sonora também são fundamentais para que esse mergulho seja possível. Sem falar das pausas, precisas e pensadas cuidadosamente para dar o tom e o clima de imersão. 

Elayne Baeta e Bianca Comparato (Foto: Mariana Maltoni/Divulgação)
Elayne Baeta e Bianca Comparato (Foto: Mariana Maltoni/Divulgação)

No espaço entre nós tem um quê de futuro distópico e também um quê de ficção científica à brasileira, onde tudo é possível. Para compor a história, ainda temos uma empresa nacional ao estilo NASA, que é gerida por uma mulher, Suzy, dublada pela icônica Yara de Novaes; uma assistente virtual irônica, Ariel, com a sagacidade da genial Camila Fremder; e uma IA apaixonada, com o sotaque potiguar carregado, fruto do charme de Alice Carvalho, que mais uma vez ousa nas suas escolhas criativas. 

Há algo de íntimo no fato de Lilith ter sotaque. A inteligência artificial não fala de forma neutra, robotizada, como acontece em tantas outras ficções. Ela carrega cadência e ritmo. É como se a tecnologia aqui tivesse corpo, território, memória. E isso a torna mais próxima, mais viva, mais apaixonante. E, por quê não, mais perigosa também. 

Com direção de Bianca Comparato, a audionovela (que também poderia ser chamada de audiosérie), é um respiro de criatividade em um mar de formatos batidos. É uma porta que se abre no mercado fonográfico e audiovisual, para que se crie novas formas de contar uma história. Depois dos podcasts, esse pode ser um caminho interessante para que novas narrativas surjam, especialmente as que lutam por investimento sem sucesso. Afinal, o essencial aqui fica muito claro: uma boa história, quando bem contada, é imbatível. 

Ao longo dos episódios, refletimos sobre saúde mental, luto, solidão, relações mediadas pela tecnologia e, principalmente, sobre o amor. Seria talvez a nossa versão sáfica de Her (2013), o clássico filme de Spike Jonze, que praticamente previu a interação entre humanos e inteligências artificiais por voz? Sim, pode até ser. Mas essa nossa versão brasileira conta com muito mais tesão e calor. Ainda que tenha, claro, sua dose de melancolia. Sem dar spoiler, o sexo se mostra muito mais sensorial do que simplesmente físico. O desejo de Lilith em experimentar o mundo bate de frente com uma redescoberta de Maitê com o próprio corpo, depois de perder a mulher que amava. 

A equipe de "No espaço entre nós" (Foto: Divulgação)
A equipe de “No espaço entre nós” (Foto: Divulgação)

No espaço entre nós exibe um luto vivido intensamente. Maitê, ao dialogar com Lilith, enfrenta a ausência como quem olha para o espaço infinito. A perda não é suavizada, nem romantizada. Ela é dura, áspera, mas abre fendas por onde a alegria insiste em entrar. E é justamente nesse atrito entre um fraco impulso de vida, como diria Caetano Veloso, em seu “Eclipse Oculto”, e o desejo de sentir, que nasce a beleza.

A trama não busca respostas fáceis. O que se vê é o tropeço, a vontade que se confunde com culpa, o prazer que se mistura à saudade. É nesse embaraço que a audionovela encontra força. Não importam tanto as possíveis pontas soltas nas explicações científicas, mas sim o desenrolar dessa amarra entre duas personagens que traçam suas próprias curvas de autodescoberta ao longo de todos os episódios.     

Ouvir a história é como abrir uma janela para dentro de si. O som das vozes não só conduz, mas também provoca. É curioso perceber como, na ausência de imagens, somos convidadas a criar as nossas próprias. Quando os episódios acabam, o que fica é a sensação de que vivemos juntas com as personagens nesse mesmo espaço “entre”. 

Entre a memória do que passou e a projeção do que poderia ser. Entre o que já se foi e o que ainda não chegou. Entre a entrega e a cautela. No espaço entre nós é mais do que uma história de amor no futuro: é um lembrete de que o amor, em qualquer tempo, sempre vai encontrar sua própria maneira de existir – e de se fazer ver ou ouvir. Seja no toque dos dedos ou dentro dos nossos fones.