Waldirene Nogueira, ícone LGBTQIA+ reconhecida como a primeira mulher trans do Brasil a passar por uma cirurgia de redesignação sexual, morreu nesta terça-feira (19), aos 80 anos, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. A informação foi confirmada por familiares e pela funerária responsável pelo velório. O corpo será levado para Lins, no interior paulista, cidade onde ela nasceu e construiu parte de sua trajetória.

A morte de Waldirene encerra um capítulo fundamental da história da comunidade LGBTQIA+ e, principalmente, da população travesti e transexual no país. Em dezembro de 1971, ela foi submetida à cirurgia de redesignação sexual no Hospital Oswaldo Cruz, na capital paulista, em um procedimento conduzido pelo cirurgião plástico Roberto Farina. À época, o Brasil ainda tratava a transexualidade sob forte estigma social, jurídico e médico, e o caso provocou repercussão nacional.

O procedimento de Waldirene foi realizado mais de 40 anos depois de Lili Elbe, a Garota Dinamarquesa que fez a primeira cirurgia de redesignação sexual do mundo, ter começado seu processo transitório. Antes disso, a brasileira passou cerca de dois anos em acompanhamento com especialistas, parte de um tratamento contínuo que até hoje é obrigatório antes e depois de qualquer intervenção cirúrgica.

Mesmo assim, Waldirene Nogueira teve sua identidade de gênero alvo de questionamentos públicos e institucionais à época. O Instituto Médico Legal (IML), inclusive, chegou a ser acionado para verificar se ela “era mulher”, enquanto seus documentos ainda registravam o nome masculino atribuído no nascimento. A retificação só veio décadas depois, em 2011.

Ficha de Waldirene Nogueira no Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo (Foto: BBC Brasil | Reprodução)
Ficha de Waldirene Nogueira no Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo (Foto: BBC Brasil | Reprodução)

Farina foi processado por “mutilação genital” e a Justiça de São Paulo chamou Waldirene de “eunuco estilizado”. Ainda assim, os dois lutaram contra o estigma, ao mesmo tempo em que ela recolhia cartas de apoio entre parentes e amigos para o cirurgião.

O legado de Waldirene Nogueira

A trajetória de Waldirene atravessou décadas marcadas pela invisibilidade e pela marginalização da população trans brasileira. Sua história passou a ser lembrada como símbolo de resistência em um período no qual pessoas trans eram frequentemente excluídas de direitos básicos, afastadas do mercado de trabalho formal e submetidas à violência cotidiana.

Dez anos depois, a ditadura militar continuou perseguindo pessoas como Waldirene através dos “rondões”, que levaram mais de 1.500 travestis e transexuais à prisão só em São Paulo.

Waldirene Nogueira era presença fixa nos desfiles de carnaval em Lins (Foto: Reprodução Facebook)
Waldirene Nogueira era presença fixa nos desfiles de carnaval em Lins (Foto: Reprodução Facebook)

Nos últimos anos, o reconhecimento de sua importância histórica cresceu entre movimentos LGBTQIA+, pesquisadores e produções dedicadas à memória trans no Brasil. Mais do que pioneira em um procedimento médico, Waldirene tornou-se referência para diferentes gerações que encontraram em sua história um marco de coragem e afirmação identitária.

Aos 80 anos, ela morava em Lins, onde fez fama como maquiadora e esteticista, sempre elogiada pela cidade. Waldirene também era presença fixa nos desfiles de carnaval da cidade.

A luta de Waldirene Nogueira foi tema do documentário Um corpo para Waldirene, dirigido por Rafael Farina Issas e Luíza Zaidan, e da reportagem ‘Monstro, prostituta, bichinha’: como a Justiça condenou a 1ª cirurgia de mudança de sexo do Brasil, publicada pela BBC e premiada com o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

A luta de Waldirene Nogueira foi contada no documentário "Um corpo para Waldirene", dirigido por Rafael Farina Issas, sobrinho do cirurgião plástico que fez sua transição, e Luíza Zaidan (Foto: Divulgação)
A luta de Waldirene Nogueira foi contada no documentário “Um corpo para Waldirene”, dirigido por Rafael Farina Issas, sobrinho do cirurgião plástico que fez sua transição, e Luíza Zaidan (Foto: Divulgação)

O velório acontece nesta quarta-feira (20), a partir das 17h, no Memorial Santa Izabel, em Lins. O enterro está previsto para as 7h, no Cemitério da Saudade.