Se você já pensou em fazer carreira internacional, qual foi o primeiro país que veio à sua cabeça? Provavelmente nenhum vizinho.

Por muito tempo, nos ensinaram que “internacional” era sinônimo de atravessar o oceano ou que o sucesso “lá fora” só começa acima da linha do Equador.
Mas e se ele sempre esteve por aqui todo esse tempo?

Nos anos 1990, Shakira decidiu testar essa hipótese traçando um caminho menos óbvio e virando o mapa-múndi de cabeça pra baixo. Na verdade, talvez ela só tenha enxergado o mapa do jeito que ele devia ser visto. E graças a essa perspicácia disfarçada de aposta, uma das primeiras casas que ela encontrou de portas abertas para a sua arte foi o Brasil.

Se você é do grupo 30+ ou está prestes a chegar lá, provavelmente já transformou o controle remoto ou a escova de cabelos em microfone pra cantar “Estoy Aquí” num almoço de domingo, enquanto o Gugu ou o Faustão passavam na TV.

Hoje, décadas depois, enquanto o Rio de Janeiro se prepara para mais uma edição do Todo Mundo no Rio, surgem comparações inevitáveis entre Shakira e outros nomes que já passaram pelo maior palco do mundo. Há quem diga que o Lobacabana de la colombiana não consegue repetir os números de Madonna ou Lady Gaga, que bateu o recorde da Mother Monster, que colocou mais de 2 milhões de pessoas na Praia de Copacabana.

Mas talvez estejamos medindo o fenômeno Shakira pela régua errada.

(Em tempo: foi um erro darem a entender que o show seria da Britney? Sim. Mas bicha, supera, vive o momento, foca no presente, sabe?)

Entre as três divas convidadas para se apresentar na Paraia de Copacabana, Shakira é a primeira popstar latina a receber Todo Mundo no Rio. É a única que cresceu olhando para o mesmo lado do mapa que a gente. É a única que provavelmente já dormiu numa cadeira de plástico no casamento de alguém. É a única que fala português com sotaque e afeto.

Shakira mostra a mala verde e amarela antes do Lobacana em Copacabana (Foto: Reprodução)
Shakira mostra a mala verde e amarela antes do Lobacana em Copacabana (Foto: Reprodução)

Ao mesmo tempo, Shakira nunca coube em um só rótulo, nem que ele seja o de “estrela latina”. Sua música vai do pop ao rock, do rock ao reggaeton, cumbia, salsa, merengue, bachata, champeta, vallenato, com pitadas de eletrônico e influências árabes. Uma mistura que soa exatamente como a gente: híbrida, quente, impossível de traduzir em uma palavra só.

Traduz “saudade” aí prum gringo! Explica a diferença entre “te quiero” e “te amo”!

É mais ou menos por aí…

Brasil e Colômbia compartilham mais do que parece. Somos países irmãos, filhos da mesma mãe solteira, mas de pais diferentes. Um português e outro espanhol. Ambos relacionamentos nada estáveis. Talvez seja por isso que dividimos o mesmo instinto de resistência, rebeldia e reinvenção, quase sempre expressados em festa.

Shakira ajudou a pavimentar esse território del perreo. Não adianta exaltar Bad Bunny em janeiro e não exaltar Shakira em maio. Ela não só abriu caminhos, como descampou a estrada para que ele pudesse caminhar entre o milharal do Super Bowl – onde ela inclusive se apresentou seis anos antes.

Claro que contém ironia aqui. Bad Bunny ralou e representou – e muito! Eu me emocionei, você se emocionou, nós nos emocionamos. Mas existiria “Baile Inolvidable” em 2025 sem “Antología” em 1995?

 

No dia 2 de maio, o Rio, que já é por natureza uma cidade multicultural, não vai ser “só” palco de um megaevento. Vai celebrar a latinidade. Vai ter um vizinho entrando na nossa casa. E eu, como uma boa mineira, vou recepcionar direitinho, oferecendo café bem passado e dois dedos de prosa em portunhol.

O que é “internacional” também pode falar a nossa língua.

E se o recorde do público vier, eu espero que salpique em Piqué. [Insira aqui uma trilha de uma cena de vingança de novela mexicana]

Que viva el perreo.
Que viva América Latina!