Na coluna Playlist de maio de 2025, Fabiano Moreira* comenta os principais lançamentos musicais de artistas LGBTQIA+ do último mês. A leva de novidades inclui os álbuns de DJ th4ys, Catto, Majur, Malka Julieta, Candy Mel e Irmãs de Pau; os EPs de Potyguara Bardo, Mavi Veloso e Silas Niehaus; além dos singles de Mia Badgyal e Dornelles com Kalef Castro e PZZS.

Abaixo, confira a seleção. E não deixe de seguir também a nossa playlist para não perder os próximos lançamentos.

DJ th4ys – “Gira Mundo”

O álbum de estreia da DJ carioca th4ys, Gira Mundo, traz apenas mulheres em todas as etapas: produção, composição, vozes e direção criativa. Cria do Grajaú, ela celebra o protagonismo feminino nas pistas, nas produções e nos vocais, reunindo Jup do Bairro, MC Cacau, MC Kátia, Tati Quebra Barraco, Deize Tigrona e MC Carol.  O álbum é encerrado com um “chá de b*cetada” no interlúdio “Girando o mundo”. O clima é de sacanagem alto astral, como em “Bissexual”, com Jup do Bairro, que aponta a grande vantagem de ser bissexual, que é “ser marmita de casal”. O álbum celebra o estilo mandelão, a ballroom na faixa no foco, “Vogue in Funk”, e o funk como autêntica música eletrônica brasileira, com as MCs Gibizinha, Caê, Cacau Chu, Bob Anne & DJ Vicx, MC Nahara e DJ Kingdom, MC Vital e MC Byanna. Antes mesmo do lançamento, ela já era um sucesso no Spotify, com 1 milhão de ouvintes mensais.

Catto – “Caminhos selvagens”

Catto confirma seu nome entre as maiores cantoras da atualidade com Caminhos selvagens, seu quinto álbum de estúdio, que chega coladinho ao fim da era cantando Gal Costa em Belezas são coisas acesas por dentro, um marco na sua carreira e em nossas vidas. Catto canta pra subir, como diz a letra de “1001 noites over”, na qual só quer “arrasar e ser feliz”, com os pecados perdoados na segunda-feira. São oito composições da gaúcha, com produção dela mesma, em parceria com Fabio Pinczowski e Jojo Inácio, em um volume coeso que comprova a importância da sua voz, celebrando 15 anos de carreira. Loira e em nova fase, Catto nos conduz por uma jornada musical intensa, cinematográfica e profundamente emocional, um disco de rock dramático e inovador. Entre guitarras distorcidas, atmosferas etéreas e arranjos orquestrais, a artista refaz sua sonoridade, inspirando-se no rock alternativo dos anos 1990. O disco conta com participações de músicos como Michelle Abu, Felipe Puperi, Gabriel Mayall, Bruno Silveira e Magno Vito. 

Irmãs de Pau – Gambiarra Chic Pt. 2

As Irmãs de Pau venceram e colocaram seu nome altão na indústria fonográfica, como comprovam com Gambiarra Chic Parte 2, que era pra ser a parte 2 de um primeiro EP, mas veio como álbum bem cheio de qualidade, firmando o nome da dupla entre os mais quentes da música de pista gay atual. A sonoridade é guiada, principalmente, pelo funk, misturado a dancehall, drill e rap, com participações de Duquesa, Ebony, Ventura Profana, Tasha Kayala e Polemik, além de produções assinadas por DJ Dayeh, Brunoso, Fuso! e Athemus, Larinhx, Lorrany, DJ Cozy e Cyberkills. “Quando o palhaço botar, tu vai rir ou vai chorar”, ironizam, logo na abertura, em “Boy boy”, com DJ Dayeh. “Eu mesma trabalhei, comprei minha bolsa da Lacoste”, em “Queimando Ice”, com Duquesa. “Mostramos como a dupla mudou nossa vida, como é chique viver com qualidade de vida e autonomia do nosso corpo: morar em um lugar confortável, ajudar nossa família, se alimentar bem e até mesmo fazer os procedimentos estéticos, colocar o cabelo que a gente gosta”, conta Isma. Elas merecem. Os versos das artistas exploram o funk por outro viés: o de subverter a ideia de que o sexo e o prazer não pertecem ao feminino.

Malka Julieta – Chão

Entrevistada na Sexta Sei, Malka Julieta fez sua estreia com o álbum Chão (segundo o Spotify, o volume que eu mais torei no mês). Usando apenas o pimeiro nome, Malka mescla pop, funk, house, rap, drill, MPB, piseiro, brega, pagodão, jazz e R&B em projeto que traz participações de amigos, como Deize Tigrona, na super sapatônica “Sururu das meninas pt.2”;, Nomade Orquestra, na longa, anti-comercial e orquestral “Chão”, que ganhou clipe dirigido pela própria Malka junto a Letícia Maria; Zopelar, também nesta faixa e nas mais clubbers, como “Acué e pilantragem”; Brisa Flow, Dharma Jhaz, BADSISTA, Vênus Garland, Leoa, Synto e Ashira. Produtora que comandou, por anos, o Trava Recs, lançando nomes como MC Xuxú, ela estreia com um som autêntico e inovador. “Você pode chupar o meu pau de mulher”, transgride, poeticamente, em “Meu pau de mulher”. Apresentado pela Natura Musical, o novo disco reflete uma trajetória marcada pelas dores e pelas delícias de sua vida, em uma busca incessante por autenticidade. 

Majur – “Gira Mundo”

Depois da era pop guiada pela produção de Max Viana, filho de Djavan, a baiana Majur faz um retorno às suas origens ancestrais baianas em Gira Mundo, que evidencia a potência de seu canto profundo. O disco, com 16 faixas em iorubá, explora uma estética afro pop contemporânea e se destaca pelo uso de instrumentos orquestrais, como piano, baixo acústico, clarins e atabaques. Sob direção musical baiana de Ícaro Sá e Ícaro Santiago, a cantora e compositora homenageia, em cada música, uma força da natureza, ou orixás, com cantigas e mensagens, como “Nanã”, minha orixá de cabeça. Gravado na Bahia, o novo álbum tem como faixa foco “Iroko”, que, no candomblé, significa “tempo, a passagem das gerações e a força da natureza”. Uma forma de oração.

Candy Mel“5estrelas”

Logo após a turnê de retorno da icônica Banda Uó, que formou nosso caráter, Candy Mel lança seu primeiro álbum solo, o bom 5Estrelas, no qual ela se apresenta, logo na capa, como a quinta estrela da bandeira do Brasil. O álbum traz participações de Liniker, Rico Dalasam, Mc Tha e Jup do Bairro e mostra uma artista pronta e amadurecida, que se reinventa sem se desconectar de suas raízes. Com produção musical assinada por Nave e Fejuca, o álbum propõe uma jornada entre o popular e o sagrado, entre o brega e a orquestra, entre a pista de dança e o quintal de Goiás. Tem piseiro, brega-funk, seresta, trap, tecnobrega e mais. Destaque para a belíssima “Tanto pra dar”, com Dalasam e o craque Léo Cavalcanti; “Corpo Nu”, faixa no foco do lançamento, sensual e feita pra dançar; e Açúcar e Sal”, com Jup do Bairro, que torna em ouro tudo que toca.

Mavi Veloso – Her blossoming delights

Mavi Veloso foi um dos posts mais acessados do ano dois da Sexta Sei, com seu álbum de estreia, o bom Travesti biológica. Ela retorna ao streaming e às reflexões sobre a vida de pessoas trans com o EP Her blossoming delights, mais um manifesto sonoro de transformação, prazer e reinvenção. Cada faixa “é um feitiço, um fragmento de resistência, uma cartografia das possibilidades transfemininas”, diz o texto de divulgação. Passando por pop experimental, R&B, baile funk e eletrônica/dance, ela evoca um mundo de sonhos, bruxaria trans e traquejos travestis. Ela disseca “os altos viscerais e as fraturas existenciais da transição de gênero”, mapeando a disforia, o desejo e a busca incessante por autodeterminação. 

Potyguara Bardo – “Romântica” 

Tenho um carinho especial pela Potyguara Bardo, artista de Natal que foi uma das primeiras páginas da Sexta Sei. Sem lançar fonogramas desde 2022, quando soltou “Volte sempre”, com Danny Bond, nossa criatura mítica de cabelos roxos está de volta com o EP Romântica, a primeira parte de seu segundo álbum, Comédia Romântica, o sucessor de Simulacre (2018), que marcou nossas vidas. Eu não paro de ouvir em looping esse EP conduzido por reggaes e bregas deliciosos, principalmente “A mina”, parceria com Getúlio Abelha; e “Casulo”, que lhe “protege do mundo ao redor”, minhas favoritas. “Romântica é um mergulho nessa temática tão presente na minha vida desde muito cedo: minha capacidade de romantizar as coisas. Ao mesmo tempo quando falo, superficialmente, de relacionamentos ou amores que só existem na minha cabeça, também estou falando sobre essa busca por aprovação que um artista pode se colocar em relação ao seu público. Uma linha Bad Romance”, me contou.

Potyguara volta ao seu casulo para se refazer e, quando a gente acha que o EP é um mergulho nos ritmos regionais, ela volta toda clubber e encerra com “Piada Cósmica”, quase uma vinheta eletrônica, sonoridade que faz parte do DNA dessa artista potente, com uma citação a “Believe”, de Cher, acreditando no poder do amor. “O álbum emula os sons que tocavam enquanto ela crescia nos barzinhos da esquina da cidade da esperança em Natal (RN). Queria ouvir minha infância, não reinventar a roda. Cantar minhas vivências verdadeiras,sendo quem eu sou, já se encarrega disso”, conta.

Silas NiehausMàriwò

“É sobre isso, é belo”, canta o baiano Silas Niehaus em ‘Pras menines”, faixa no foco de seu EP de estreia, Màriwò. O volume é uma celebração de sua identidade preta, LGBTQI+ e periférica e foi lançado pelo projeto Sons do Subúrbio com sua bem azeitada mistura de MPB, samba e pop que transborda poesia, sensibilidade e força criativa. Aos 25 anos, ele se apresenta como cantor, compositor, multi-instrumentista, poeta, ator, artesão e artista drag queen. Silas nasceu e foi criado no bairro de Fazenda Coutos III, Subúrbio Ferroviário de Salvador. O título do EP tem origem iorubá e significa o nome dado à folha desfiada do dendezeiro, utilizada nas portas e janelas dos terreiros de candomblé, consagrado a Ogum. A produção musical do EP é assinada por Irmão Carlos Psicofunk.

Mia BadgyalMotor”

Aquecendo o “Motor” para o lançamento de seu segundo álbum, a paulistana Mia Badgyal apresenta reggaeton de pegada underground na faixa que antecipa o volume, parceria com a argentina Ms Nina e produção do craque Carlos do Complexo. A música também vem acompanhada de um remix com participação da lenda do funk MC Binn, produzido por Clementaum. “Motor” apresenta um novo lado da artista, explorando ainda mais sua latinidade, mas, nunca abrindo mão da brasilidade.‘Motor’ é uma mistura de reggaeton com música eletrônica e define bem o que vou apresentar no meu segundo álbum de estúdio”, aponta Mia sobre seu próximo projeto, que deve chegar ainda neste ano. A capa é referência direta a Lady Gaga em Born This Way, criada junto com os artistas Indigno Kid, Victor Corazza, Mateus Aguiar, Lucasphobia e Kaio César.

Dornelles, Kalef Castro e PZZS“Putífero

A trajetória de Dornelles é a do herói, do menino da periferia do Rio que corre atrás do sonho, vai lá e entrega star quality, como em “Putífero”, hit feito em parceria com outro craque que a coluna acompanha desde o começo, Kalef Castro, e com PZZS, exaltando o poder da versatilidade sem tabu. O clipe chegou ao top 5 de virais do YouTube com estrelas do pornô gay interagindo em um cruising bar carioca. São quase 100 mil visualizações no YouTube, e a faixa chegou a cair do Spotify, onde está de volta com mais de um milhão de plays. “Pu-tí-fe-ro, na tua cama é pitbull / Come em cima, dá por baixo / Ele é versátil, sem tabu”, diz a letra. É uma música, sobretudo, sobre nos ajudarmos uns aos outros a sermos mais felizes, sem tabu, trocando de posições. O elenco tem nove atores pornô gays, como Capitão Jack, Davi Lobo e Yuri Oberon. A escolha dos nomes veio do apoio que eles deram à trajetória viral da faixa, com vídeos como esse maravilhoso que até a Marina Lima repostou. “A pornografia se reafirma como plataforma potente de construção de desejo, identidade e visibilidade, não apenas enquanto entretenimento adulto, mas como meio de impulsionar artistas, fomentar narrativas dissidentes e disputar o imaginário cultural, ampliando o alcance da cena queer no mercado mainstream”, diz Dornelles.

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*Fabiano Moreira é jornalista desde 1997 e já passou pelas redações de O Globo, Tribuna de Minas, Mix Brasil, RG e Baixo Centro, além de ter produzido a festa Bootie Rio. Atualmente, escreve no Baixo Centro, fazendo a Sexta Sei, e aqui na Híbrida.


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