Ao final da estreia mais aguardada na segunda noite da 19ª edição do Festival do Rio nesta última sexta-feira (06/10), o longa “Me Chame Pelo Seu Nome” (“Call Me By Your Name”, 2017) provocou uma efervescente rodada de aplausos pela principal sala do Cine Odeon. Até mais que isso: foram duas ovacionadas durante a rolagem de créditos finais. Na platéia, personalidades como Malu Mader, Debora Bloch, Cauã Reymond, Bárbara Paz e Vik Muniz também se emocionaram e contribuíram com a reação da platéia, todos estupefatos com a delicadeza do roteiro. A comoção não foi em vão: também estavam presentes o diretor do longa, Luca Gudagnino, e o produtor Rodrigo Teixeira que, comovido, introduziu a sessão agradecendo sua irmã: “Ela me abriu a cabeça para que quando eu visse uma história como essa, estivesse preparado para contá-la”, disse mais tarde à Revista Híbrida.

Brasileiro e responsável pela produção dos nacionais “O Cheiro do Ralo” (2006) e “Tim Maia” (2014), como também dos gringos “A Bruxa” (“The Witch”, 2016), “Frances Ha” (2012) e “Patti Cake$” (2017) —  que chegará ao Festival no fim da semana (13/10) -, Teixeira comentou a experiência de trabalhar com o mercado norte-americano. “Basta tentar e correr atrás. Não dá para ficar parado. Se você gosta do projeto e consegue as pessoas certas, as chances de o filme ser um sucesso são grandes”, revelou, comentando ainda o que o atraiu para esse longa específico: “O Luca me procurou, me mandou o projeto e eu topei na hora. Achei uma história linda e tinha muita vontade de trabalhar com ele. É alguém em quem eu confio completamente e tive certeza de que faria um trabalho incrível.”

Luca Guadagnino e Rodrigo Teixeira. durante a estreia de “Me chame pelo seu nome” no Festival do Rio (Foto: Ruano Carneiro | Divulgação)

A recepção ardorosa do público não foi nenhuma surpresa. Exibido pela primeira vez durante o Festival de Sundance no início deste ano, o mais recente trabalho do diretor italiano responsável por “Um Sonho de Amor” e “A Bigger Splash”, dentre outros, tem recebido críticas e reações entusiasmadas pelos eventos por onde passa. No Rotten Tomatoes, site que agrega as notas de diversas publicações críticas pelo mundo, o filme possui a impressionante pontuação de 96% de aprovação.

Para o diretor, o hype positivo é um tanto quanto inesperado e reconfortante: “Sempre me perguntam isso, mas eu fico muito constrangido porque não sei como responder. Quando você faz um filme, você faz aquilo e pronto, não fica pensando por quê ou como as pessoas vão reagir a ele. Agora, quando você coloca esse filme no mundo – e lançar um filme é como mandar um filho à guerra -, você sempre espera que ele chegue da forma apropriada. E quando ele é bem recebido, você fica feliz.”

O sucesso é tamanho que o longa se tornou um dos principais nomes nas previsões realizadas a cada ano para descobrir quais obras chegarão a lista final de indicados do Oscar. “A gente lida com isso tendo bastante expectativa, mas por enquanto não dá para transformar em realidade. É preciso esperar”, diz Teixeira, ao passo que o diretor alega: “É claro que eu estou animado, mas por enquanto é apenas buzz. É algo abstrato”.

Embora possa ser algo realmente abstrato, não é difícil apostar em “Me Chame Pelo Seu Nome” e não é impossível crer que ele chegará até lá. A Acadêmia, embora acusada de retrógrada diversas vezes, já incluiu obras com teor LGBT+ em sua lista de indicados e também em sua lista de vencedores, tendo, em especial, a surpreendente vitória de “Moonlight: Sob a Luz do Luar” (“Moonlight”, 2016) como Melhor Filme (a principal estatueta da noite) na cerimônia de 2017.

No Festival do Rio, “Me chame pelo seu nome” reafirma o buzz na corrida pelo Oscar que vem angariando em outros festivais mundo afora (Foto: Reprodução)

Adaptado por James Ivory e baseado no romance de mesmo nome do autor André Aciman, “Me Chame Pelo Seu Nome” conta a história do garoto-prodígio Elio (Timothée Chalamet). No verão de 1983, “em algum lugar no Norte da Itália”, o adolescente conhece Oliver (Armie Hammer), um acadêmico mais velho e que está de passagem por alguns dias na casa de sua família a convite do patriarca vívido por Michael Stuhlbarg e pela mãe, interpretada por Amira Casar. A interação entre os dois, a princípio, é tangida por uma tensão sexual e uma forte curiosidade que, mais adiante, se desenvolve para algo muito maior e muito acima do que o protagonista poderia esperar.

Como detentor do ponto de vista daquela história, experienciamos com Elio a confusão e os anseios provocados pelo desejo do despertar sexual tão comum na puberdade, com destaque para uma cena controversa envolvendo um pêssego e já infame a essa altura. Para Gudagnino, diga-se de passagem, a sequência “não foi mais difícil [de dirigir] do que qualquer outra cena do filme” já que “o importante era fazê-la da forma correta”. Há, nesse ponto, ecos do relativamente recente “Azul é a Cor Mais Quente” (“Blue Is the Warmest Color”, 2013), romance com teor LGBT+ dirigido por Abdellatif Kechiche. E, assim como a musa de Keniche (Adèle Exarchopoulos), Timothée entrega uma performance inesquecível, daquelas que transformam a carreira de muitos intérpretes e que, dada a tamanha naturalidade, nos faz esquecer que o artista está, na realidade, representando um personagem.

Ao lado do jovem, Hammer também tem a chance de brilhar no que, até então, pode ser considerado o melhor trabalho de sua carreira. Revelado por David Fincher em “A Rede Social” (“The Social Network”, 2010), o americano imprime charme e carisma suficientes ao estudante Oliver, seja em suas diversas cenas sem camisa ou até mesmo ao proferir seu característico “até mais”. Sua postura, embora inicialmente pareça “convencida e arrogante” – nas palavras do próprio Elio -, logo mais se converte para algo mais vulnerável e multidimensional.

Timothée Chalamet e Armie Hammer (fundo) entregam performances inesquecíveis em “Me chame pelo seu nome” (Foto: Reprodução)

A diferença de idade entre os dois personagens: um de 17 anos e outro de 24, foi alvo de repreensão por alguns. O ator James Woods, que recentemente é mais reconhecido por suas posturas conservadoras a pautas progressistas que por seu talento, escreveu no Twitter: “Enquanto eles silenciosamente eliminam as últimas barreiras de decência”, se referindo ao tweet do escritor Chad Felix Greene, que havia linkado uma notícia a respeito do audiobook do livro em que o longa fora baseado, dizendo “Homem de 24 anos. Garoto de 17 anos. Chega”. Woods foi repreendido por Hammer e pela atriz Amber Tamblyn, que apontou a hipocrisia do ator e relatou que ele a havia abordado com segundas intenções quando ela própria tinha 16 anos.

Para o diretor, a discrepância etária dos dois protagonistas não é o principal ponto da trama. “Você já viu o filme ‘Dirty Dancing’? A Jennifer Gray interpreta uma menina de 17 anos, enquanto o Patrick Swayze faz um cara de 24. No meu filme, o Elio tem 17 e o Oliver 24 também. Você diria que ‘Dirty Dancing’ é um filme sobre uma diferença de idade dramática? Então é isso.” E Gudagnino tem razão. Nem “Dirty Dancing” e nem “Me Chame Pelo Seu Nome” são sobre isso.

Embora influencie o fato de um jovem se apaixonar por alguém poucos anos mais velho, no que diz respeito à descoberta do garoto e à influência que ele possa ou não receber de alguém “mais experiente” —  e tal discussão é presente no filme -, essa distinção não é, de fato, o principal ponto da trama. O desenrolar da relação entre os personagens é muito mais que uma “diferença de idade dramática”, já que ambos apresentam graus semelhantes de maturidade. Natural, identificável e extremamente sensual (sem, em momento algum, soar como gratuito ou apelativo), o romance entre Elio e Oliver pode ser sentido pelos olhares que um lança sobre o outro, pelo toque e afeto que compartilham e pela ansiedade que o mais jovem exprime em relação àquele homem.

Apesar da diferença de idade, o romance entre Elio e Oliver é mostrado de forma natural, identificável e extremamente sensual, sem apelações (Foto: Divulgação)

Há presente também um senso de nostalgia na retratação do que é viver um primeiro grande amor e tudo que isso implica. A sensação é expressa pelos belos cenários enquadrados por Guadagnino (que dão vontade de nos transportamos imediatamente para aquela paradisíaca Itália dos anos 1980) e pelas músicas compostas por Sufjan Stevens. Complementando como pano de funo, há também as divagações sobre literatura, Bach, esculturas, linguagem e até mesmo sobre o cinema de Luis Buñuel  — citado em discussão num dos mais divertidos momentos do filme.

Em meio a tanta repressão e a tanto preconceito enfrentados diariamente pelos membros da comunidade LGBT+ – estendido até mesmo na arte, com a polêmica da “Queermuseu” – , “Me Chame Pelo Seu Nome” é o mais terno, sensível e caloroso retrato de amor de 2017. E, ao mesmo tempo, nos questiona se “É melhor falar ou morrer?”, como o trecho extraído de “Heptameron”, (Margarida de Valois) e citado no longa. Conclusivamente, o filme nos responde a questão ao ensinar uma lição universal e importante sobre crescimento, reconhecimento e, acima de tudo, sobre se permitir a sentir.