*Texto original de Laura Mills

Em nosso quarto artigo da série sobre personagens LGBTs na Segunda Guerra Mundial, discutiremos algo frequentemente ignorado: as experiências de mulheres queer ao longo da Segunda Guerra Mundial. Antes de mais nada, um alerta de gatilho: este artigo contém menções de trabalho sexual forçado, estupro corretivo e gravidez forçada.

O sofrimento de mulheres queer não deve ser encarado de forma leviana. Encare o cenário: antes de os nazistas chegarem ao poder, Berlim foi um dos lugares mais seguros para pessoas queer na Europa. Como discutimos anteriormente, a capital alemã tinha desenvolvido uma rica cultura queer, abraçando uma mentalidade aberta e o estudo instruído das vidas LGBT.

Haviam bares, boates, sociedades, livrarias LGBT e muito mais. Apesar da atmosfera geral de segurança, entretanto, a homossexualidade entre homens ainda era ilegal de acordo com o Parágrafo 175 do código penal alemão. E aqui, é importante notar que ele não definia relacionamentos homoafetivos entre mulheres como ilegais.

Uniforme usada por prisioneiros gays durante o Holocausto, com o triângulo rosa que os identificava (Foto: Reprodução)
Uniforme usada por prisioneiros gays durante o Holocausto, com o triângulo rosa que os identificava (Foto: Reprodução)

Mulheres LGBTs cisgêneras e pessoas assinaladas mulheres ao nascer foram excluídas do Parágrafo 175 porque ainda eram vistas como “úteis” – ainda tinham úteros que poderiam, teoricamente, dar à luz. Apesar de mulheres trans serem tratadas da mesma forma que homens gays, mulheres cis permaneceram intocadas por algum tempo durante a ascensão do Nazismo, na esperança de servirem para a produção de mais crianças arianas.

A existência destas mulheres nunca foi permitida por bondade, mas sim pela ideia de que elas seriam “reparáveis”. E, ainda assim, mulheres queer não deixaram de ser punidas socialmente, enfrentando ostracismo, a destruição dos seus espaços de congregação e consequências ainda mais fortes quando os nazistas chegaram ao poder.

É verdade que poucas mulheres queer foram enviadas a campos de concentração – e, nenhuma delas sob o símbolo do triângulo cor-de-rosa, usado para assinalar homens gays e mulheres transgêneres -, mas isso não significa que elas não sofreram. Em vez disso, elas eram colocadas na categoria asocial.

Henny Schermann foi uma das poucas lésbicas presas com registro durante o Holocausto (Foto: Reprodução)
Henny Schermann foi uma das poucas lésbicas presas com registro durante o Holocausto (Foto: Reprodução)

Uma das poucas prisioneiras lésbicas identificadas foi Henny Schermann, presa em 1940. Ela foi enviada para o campo Ravensbrück com a seguinte descrição em sua ficha: “Vendedora solteira de Frankfurt. Lésbica libertina, apenas frequenta bares assim (lésbicos)”. Em 1942, Henny foi assassinada em uma câmera de gás com centenas de outros prisioneiros.

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Geralmente, mulheres queer eram forçadas a trabalhar em bordéis nos campos, como uma tentativa de “consertá-las”. Em muitos casos, eram forçadas a ter relações sexuais com homens LGBTs para “corrigirem” seu comportamento “anti-natural”. Oficiais nazistas também tentavam corrigir a homo e transsexualidade através do estupro e da gravidez forçada, para que as vítimas pudessem “servir seu propósito” e dar à luz a próxima geração de arianos.

Esse comportamento não era exclusivo dos campos de concentração. Qualquer mulher queer estava em perigo apenas por sua existência, e muitas se casaram com homens para evitar tais atrocidades. Algumas encontraram um homem LGBT com quem se casar para evitar suspeitas, mas muitas não conseguiram. Muitas se casaram com homens heterossexuais e tinham sua orientação sexual negada para preservar sua segurança.

Judia e lésbica, Anitta Eick conseguiu sobrveiver à perseguição nazista durante a década de 1920 (Foto: reprodução do documentário "Parágrafo 175")
Judia e lésbica, Anitta Eick conseguiu sobrveiver à perseguição nazista durante a década de 1920 (Foto: reprodução do documentário “Parágrafo 175”)

Apesar do descaso e da dificuldade técnica de identificar o número exato de mulheres vítimas do Holocausto, algumas sobreviventes conseguiram contar suas histórias após o fim do Nazismo alemão. É o caso da autora e poetisa Anitta Eick, mulher lésbica e judia que conseguiu fugir para a Inglaterra graças à ajuda de uma namorada que ela havia conhecido antes do regime de Hitler.

Outro grande exemplo de resistência lésbica durante o Holocausto foi Lotte Hamn, editora da revista Die Freundin (“A Namorada”). Lotte produzia bailes exclusivos para mulheres durante a década de 1920, em Berlim, e conseguiu fugir dos soldados nazistas por anos até ser presa. Torturada no campo de Moringen, ela foi posteriormente solta e fez questão de militar pela causa LGBT até sua morte, em 1958.

Edições da revista Die Freudin, publicada em Berlim na década de 1920 e focada em conteúdo lésbico (Foto: Reprodução)
Edições da revista Die Freudin, publicada em Berlim na década de 1920 e focada em conteúdo lésbico (Foto: Reprodução)

Personagens como Lotte, Anitta e Henny são exceções em um período histórico ainda repleto de lacunas e vitimas anônimas. Mas isso não significa que elas devem ser esquecidas, e sim homenageadas.

Este texto faz parte do projeto Making Queer History cuja existência só é possível graças a doações. Se tiver interesse, você pode fazer uma doação única no Paypal ou tornar-se um Patrono.