A chuva já tinha dado trégua em São Paulo quando o The xx subiu por volta das 20h50 do último sábado para encerrar o segundo dia do C6 Fest na Arena Ibirapuera. A apresentação passeou pelos três discos do trio, contemplou o trabalho solo de Jamie xx, Romy e Oliver Sim, e foi da emoção dos hinos nostálgicos à euforia dos novos remixes, pensados e perfeitos para chorar na balada.
O show abriu com “Crystalised”, single do primeiro disco e um dos maiores sucessos do trio, inclusive no Brasil, onde integrou a trilha sonora de O Outro Lado do Paraíso (2017). Na sequência, a dançante “Say Something Loving”, do terceiro álbum (I See You, 2017), colocou o público pra pular de cara.
A noite seguiu alternando os sucessos tristes e nostálgicos com as produções mais recentes, cujas produções funcionam melhor nas pistas de dança do que num quarto fechado ou no fone de ouvido. Mas o truque que o The xx guarda para as suas apresentações ao vivo está exatamente aí: a inversão do sentimento que as músicas provocam.

Do fundo do palco, de onde só sai quando é hora de agradecer o público e ir embora, Jamie xx inverte, incrementa, distorce, destrói e reconstrói toda a produção dos discos de estúdio e dá nova vida à setlist com remixes e reimaginações das versões originais. “Shelter”, por exemplo, apareceu com roupagem frenética e ansiosa, cheia de batidas eletrônicas e aceleradas.
“Faz muito tempo que não tocamos como uma banda, mais de oito anos. Eu sentia falta disso. Senti falta de estar com os meus amigos, senti falta de todos vocês”, disse Oliver. “Muito obrigado por estarem aqui.”
Eles emendaram logo na sequência “VCR”. Quase acappella e em versão desacelerada, um assumiu os versos originalmente cantados pelo outro e todos do palco e da plateia ficaram com os olhos marejados. Nos 17 anos que se passaram desde que o trio surgiu, versos como “I think we are superstars” parecem ter ganhado novo significado para os artistas e para o público que os acompanha desde o início.

Nos momentos grandiosos, o The xx mostrou que esse amadurecimento parece ter curado de vez os problemas de autoestima e timidez mostrados no palco e em entrevistas ao longo dos anos. A insegurança era perceptível no primeiro show que fizeram no Brasil, em 2013, e, apesar de ter começado a se dissipar na forma como dominaram o palco do Lollapalooza, em 2017, foi agora que o trio não deixou mais dúvidas que sabe o tamanho que tem.
A liberdade e o conforto no palco ficaram visíveis, por exemplo, quando Romy e Oliver cantaram músicas do seus projetos solo. Ele, em “GMT”, se jogou com tudo no meio do público, pulou, dançou e sensualizou, enquanto a amiga dividia os synths com Jamie. Ela, em “Enjoy your life”, também pulou de um lado ao outro do palco, com sorrisão no rosto e mãos pro alto.
Outro momento hipnotizante de Romy veio em “Loud Places”, single do primeiro disco solo de Jamie, em que ela empresta os vocais. No último verso, ela olha diretamente para a câmera, projetando o rosto nos telões enormes do C6, enquanto declama sem nenhum apoio de instrumentos os versos “You’re in ecstasy/ without me / When you come down / I won’t be around”. Não à toa, tanto ela quanto Oliver foram ovacionados ao longo da noite com gritos de “gostosa! gostosa! gostosa!”, “gostoso! gostoso! gostoso!” e “we love you! we love you! we love you!” da plateia.
Ainda que muitas queridinhas dos fãs e sucessos moderados tenham ficado de fora da setlist – “Together” (trilha da novela Além do Tempo, no Brasil, e de O Grande Gatsby), “Lips”, “A Violent Noise”, “Replica”, “Heart skipped a beat” e “Basic Space” -, que seguiu sem nenhuma alteração em relação aos últimos shows do trio, a apresentação no C6 também terminou com uma versão enfezada da emblemática “Intro”, faixa instrumental do primeiro disco que foi regravada por Rihanna e serviu de trilha para a série Amores Roubados (2014), da Globo.
Em um último ato de liberação, Oliver colocou os pratos da bateria na frente do palco e esmurrou o instrumento com dois malhos nas mãos, potencializando ainda mais o impacto de “Intro”. No fundo, Jamie estourava os graves nos sintetizadores, costurando um fim apoteótico para o show que, mesmo tendo durado só 1h15, entrou para a história do C6 e da banda no Brasil.
Com o comeback de tantos grupos que têm se reunido incompletos ou, pior, sem muito tesão que não seja pelo dinheiro lucrado em cima da nostalgia dos fãs, o aguardado retorno do The xx aos palcos consolida a posição da banda como dona de um som único e precursor. E, melhor ainda, aponta para um futuro promissor que parece não se apegar a fórmulas já conhecidas pelo simples fato de já ter dado certo no passado.
Programação paralela do The xx em São Paulo
Nem só de C6 viveu o The xx em São Paulo. Na véspera do show, Oliver foi visto zanzando pela capital paulista e distribbuindo autógrafos na exibição do seu curta-metragem Hideous, terror queer dirigido por Yann Gonzalez que conta a história do cantor participando de um talk show surreal. A produção teve sessão única no Cine LT3, em Perdizes.
Já Romy foi uma das gringas que não resistioram a uma bateção de cabelo na Zig Studio e comandou um DJ set de pouco mais de 1 hora por lá. Recém-chegada da balada que Madonna promoveu para lançar o Confessions 2, ela tocou alguns dos maiores hinos pop, incluindo “Hung Up”, da Rainha do Pop, “Aquamarine” (Addison Rae), “Midnight Sun” (Zara Larson) e boa parte do seu próprio disco, Mid Air.
The xx mistura choro e nostalgia em balada apoteótica no C6 Fest








