O Brasil prepara para se despedir nesta sexta-feira (25) de uma das figuras mais marcantes da cena nacional: Preta Gil. A artista, que faleceu aos 50 anos no último domingo (20), vítima das complicações causadas por um câncer no intestino, será velada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em uma cerimônia aberta ao público.
Cantora, atriz e empresária, Preta partiu deixando um legado que vai muito além do entretenimento. Sua trajetória foi construída com coragem e uma dedicação incansável às pautas que sempre defendeu. Ícone de representatividade, ela usou sua voz para abrir caminhos, questionar padrões e celebrar a diversidade em todas as suas formas, especialmente para mulheres LGBTQIA+.
Hoje, falaremos um pouco sobre sua trajetória e impacto no História Queer.

O “berço de ouro” como construção da identidade de Preta Gil
Preta Maria Gadelha Gil Moreira nasceu no Rio de Janeiro, em 8 de agosto de 1974, no coração de uma família que ajudou a moldar a história da música brasileira. Filha da empresária Sandra Gadelha e do cantor e compositor Gilberto Gil, Preta cresceu cercada por figuras como Caetano Veloso, seu tio, e Gal Costa, sua madrinha, que contribuíram para sua identificação com a arte desde cedo.
Apesar da autoaceitação cultivada no ambiente privado, Preta, ainda criança, sentiu o peso de uma sociedade racista. Em sua autobiografia Preta Gil: Os Primeiros 50, ela relembrou um episódio marcante vivido aos 7 anos, quando estudava com os irmãos, Maria e Pedro, em uma escola particular na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Por ser uma das poucas crianças negras no colégio, ela sonhava em andar na perua escolar com os colegas, em vez de ir com o motorista da família. No entanto, ao tentar embarcar no carro de uma colega, ouviu a resposta cruel da mãe da menina: “filhos de macacos” não podiam entrar ali.

Sem entender o insulto, Preta contou o crime à mãe, que no dia seguinte confrontou a mulher com indignação. O caso, porém, foi ignorado pela escola. A atitude firme de Sandra marcaria Preta para sempre e serviria de base para a postura firme que ela adotaria ao longo da vida.
Já adulta, a artista se tornou uma voz ativa no combate ao racismo no Brasil. Em 2011, moveu um processo contra o então deputado federal Jair Bolsonaro, após ele afirmar em rede nacional que seus filhos não “corriam o risco” de se relacionarem com mulheres negras porque foram “bem-educados”. Anos depois, usaria novamente os meios legais para reagir às ofensas racistas que passou a receber nas redes sociais.
“Temos que denunciar para que a sociedade evolua. Temos que lutar para banir este tipo de preconceito e correr atrás dos nossos direitos”, declarou Preta em 2016.
Arte como paixão e o enfrentamento à gordofobia
Ao longo da década de 1990, já em transição da adolescência para a idade adulta, Preta começou a trabalhar nas produtoras Conspiração e Dueto, onde colaborou nos bastidores com artistas como Ivete Sangalo, Ana Carolina, KLB e SNZ.
Em 2003, ela decidiu assumir de vez seu lugar na música e lançou o álbum Prêt-à-Porter. O disco apresentou ao público uma artista pronta para experimentar e provocar, trazendo como destaque a já clássica “Sinais de Fogo”.
Apesar da força da canção, Preta enfrentou uma recepção dura por parte da crítica. Em vez de se debruçarem sobre suas escolhas artísticas, muitos veículos focaram quase exclusivamente nas imagens do encarte. Clicadas por Vania Toledo, as fotos mostravam a cantora seminua, celebrando seu corpo e sua liberdade.

A gordofobia e o machismo que imperaram na cultura dos anos 2000 não pararam a determinação de Preta. Ainda em 2003, ela estreou como atriz na novela Agora É que São Elas, da TV Globo e, dois anos depois, lançou outro disco. Ao longo da década, seguiu variando entre trabalhos na televisão e na música, ora como atriz, ora cantora ou apresentadora.
Em 2009, ela marcou seu nome a hist´´oria do carnaval de rua o Rio de Janeiro ao criar o Bloco da Preta, megabloco que se tornou um dos principais líderes de público da cidade, perdurando até hoje e com extensões em São Paulo e Salvador. Pouco antes, foi convidada para desfilar pela Mangueira – outro episódio em que foi alvo de duras críticas.
“A enxurrada de preconceitos por conta do meu padrão físico foi muito grande. E olha que nessa época eu tinha 20 kg a menos do que eu tenho hoje. Ali eu já era considerada uma pessoa fora do padrão. O corpo malhado, o corpo de Carnaval. E desde esse momento que tudo aconteceu, eu venho insistindo que a gente tem que ser o que a gente é, e que lugar de mulher é onde a gente quiser com o corpo que a gente quiser. O importante é a gente se amar e quebrar esses padrões”, relembrou mais tarde, em entrevista ao programa Mais Você.
Nos anos 2010, Preta seguiu trabalhando com a música, tendo lançado trabalhos em parceria com artistas como Pabllo Vittar, Gloria Groove, Marília Mendonça e até a madrinha Gal Costa.
Em 2017, tornou-se uma das sócias da Mynd, empresa especializada em música, marketing de influência e entretenimento, respons´´avel pela carreira de artistas como Luísa Sonza, Pabllo Vittar, Camilla de Lucas, dentre outros.
Sexualidade como ato político
A vida pessoal de Preta sempre refletiu sua entrega à liberdade. Foi casada com o ator Otávio Müller, pai de seu único filho, Francisco Gadelha Gil Moreira Müller de Sá; com o mergulhador Carlos Henrique Lima; e com o educador físico Rodrigo Godoy, de quem se separou em 2023.
Na juventude, durante 1989 e 1990, viveu um relacionamento com uma mulher chamada Adriana, na Bahia. O episódio foi revelado mais tarde, em sua autobiografia, onde a artista confidenciou ter lutado para tornar o relacionamento público, mas foi impedida pela parceira, que tinha receio quanto a reação da sociedade.

A relação com Adriana não foi uma exceção, mas parte da vivência afetiva de uma artista que sempre se declarou bissexual. Preta nunca tratou sua orientação sexual como tabu. Pelo contrário: falava abertamente sobre o tema em entrevistas e eventos públicos. Em 2011, chegou a ir ao Congresso Nacional para defender mudanças que garantissem o direito ao casamento igualitário na legislação brasileira.
“Eu sou bissexual assumida, fui muito atacada por isso. Estou aqui como mulher, como cidadã, fazendo a minha parte e, obviamente, sendo artista e podendo emprestar a minha voz para amplificar ainda mais a voz deles todos”, disse à época.
Em 2023, revelou ao programa De Frente com Blogueirinha que viveu uma paixão platônica por Ana Carolina, que acabou inspirando a criação da faixa “Sinais de Fogo”: “Ela não quis saber. Corri atrás loucamente. Ela me deu toco atrás de toco”, contou.
A transparência nos momentos mais difíceis
Além de sua luta incansável contra o racismo e a LGBTfobia, Preta Gil também se destacou por dar visibilidade a um tema ainda cercado de silêncio: os efeitos físicos e emocionais do tratamento contra o câncer.
Em janeiro de 2023, a artista foi diagnosticada com um tumor no intestino. Passou por sessões intensas de radioterapia, quimioterapia e uma cirurgia para a retirada do tumor. Em agosto do mesmo ano, no entanto, recebeu a notícia de que a doença havia entrado em recidiva (que é quando volta a se manifestar após um período de remissão).
Desde o início, Preta escolheu compartilhar o processo com seus fãs, abrindo espaço para um diálogo honesto sobre os percalços da doença. Falou sobre os impactos no corpo e na mente, sobre a importância do diagnóstico precoce, da rede de apoio e do cuidado integral.
“A gente não fala o suficiente sobre o câncer. Eu quero falar. Quero que as pessoas saibam que dá medo, sim, mas que é possível atravessar esse processo com amor, com fé e com dignidade”, escreveu em uma de suas postagens.

Durante o tratamento, enfrentou ainda uma dor íntima: a separação do então marido, Rodrigo Godoy, após descobrir uma traição. Em entrevista à revista Marie Claire, declarou: “Meu instinto de sobrevivência me fez querer me separar, mesmo eu estando com câncer, porque não estava me fazendo bem. E é machista achar que preciso ficar casada para ser cuidada. Por que o marido é mais importante que a mãe, o pai, a irmã, o amigo?”.
Em 2025, viajou aos Estados Unidos para iniciar um tratamento experimental, última alternativa diante do avanço da doença.
No dia 20 de julho de 2025, Preta Gil partiu, deixando o país em luto. Sua trajetória de coragem, entrega e generosidade reverberou por décadas e promete seguir presente em todos que a admiravam. Seu legado permanece vivo, num chamado contínuo à autoaceitação, à empatia e na luta por um país mais justo.








