Depois de ter feito barulho pelo circuito de festivais nacionais e internacionais por onde passou, Baby, o segundo filme dirigido por Marcelo Caetano (Corpo Elétrico, 2017), finalmente chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (9). Estrelado por João Pedro Mariano como o personagem do título, o longa conta a história de um rapaz gay que, aos 18 anos, é abandonado pela família e precisa conquistar sozinho sua própria independência na maior cidade do país, ao mesmo tempo em que tenta entender como amar alguém e se deixar ser amado.
A história começa quando Wellington (Mariano) termina de cumprir sua pena na Fundação Casa, a antiga Febem, e com sua recém-conquistada liberdade tenta retomar a vida que levava com sua família biológica. O problema é que seus pais não moram mais no mesmo lugar de antes e não deixaram rastros de onde estão agora.
Completamente abandonado e sozinho, Wellington busca um grupo de amigos LGBTQIA+ que lhe dão algum tipo de conforto e depois decidem levá-lo a um dos cinemas pornô do centro de São Paulo, onde pretendem aplicar golpes. É nas paredes desse cinema que ele conhece Ronaldo (Ricardo Teodoro), um homem atraente e mais velho que, a princípio, repele suas investidas ao descobrir que o rapaz não tem dinheiro para pagar seus serviços sexuais. Quando o “turno” acaba, entretanto, os dois acabam se conectando e Ronaldo coloca Wellington sob suas asas.

Para viver essa nova vida, Wellington passa a se chamar “Baby”. Ao longo de todo o filme, entretanto, essas duas identidades ficam colidindo na cabeça do jovem, que tenta construir algum tipo de futuro ao mesmo tempo em que não consegue se desapegar do passado e ainda tenta encontrar sua família biológica. Paralelamente, Baby e Ronaldo começam a desenvolver uma relação afetiva que se mostra tão intensa quanto inédita e confusa para ambos.
O mergulho de Baby na cena queer de São Paulo
Caetano estreou como diretor há sete anos com Corpo Elétrico, que quase imediatamente conquistou o público LGBTQIA+ do Brasil e do mundo, tornando-se um dos principais filmes queer do cinema nacional. O longa-metragem conta a história de Elias (Kelner Macêdo), um jovem gay que trabalha em uma fábrica têxtil enquanto tenta se conectar verdadeira e profundamente com alguém para suprir a falta de uma família e sobreviver sozinho em São Paulo.
Há paralelos óbvios entre Corpo Elétrico e Baby, quase como se eles coexistissem no mesmo universo – o que, até certo ponto, é verdade, considerando que ambas as histórias se passam nos dias de hoje, são protagonizadas por personagens LGBTQIA+ e ambientadas em São Paulo.
Mas em Baby, a metrópole é mostrada de forma efervescente e colorida (uma ótima notícia praqueles que reclamam incansavelmente do excesso de filmes “escuros”), enquanto pulsa igualmente cheia vida e de perigos, promovendo encontros ao acaso de cada esquina. A história de Baby e Ronaldo, por exemplo, se passa principalmente na região central de São Paulo, entre o Largo do Arouche, a República e o cruzamento das avenidas Ipiranga e São João, pontos que carregam uma relação antiga e ainda forte com a comunidade LGBTQIA+, concentrando bares e baladas, servindo de palco para protestos e reunindo uma boa parcela de GPs e traficantes.

“É um espaço onde a gentrificação não venceu, então você ainda tem classe popular, pessoas jovens, muita gente que veio de fora, migrantes de diferentes nacionalidades e uma cena LGBT muito forte, desde 1920, 1930”, explica Marcelo Caetano, em entrevista exclusiva à Híbrida durante a passagem do filme pelo Festival do Rio. Ele cita também o clássico Além do Carnaval, livro do historiador James N. Green. “Não tem como, o Centro é meio incontornável como pessoa LGBT em São Paulo.”
De fato, só quem conhece a região consegue entender o quanto ela resiste ainda hoje como o epicentro da noite queer e alternativa paulistana. Mas além de se passarem em São Paulo, as histórias de Baby e Corpo Elétrico também trazem outro ponto em comum ao explorarem a capacidade ou, na maior parte dos casos, a necessidade de pessoas LGBTQIA+ criarem famílias que não dependam de vínculo sanguíneo.
“A questão da família é muito importante, porque estou filmando numa cidade onde muitas pessoas são migrantes sexuais, que vêm para viver uma sonhada maior liberdade sexual ou de identidade de gênero”, diz Caetano. “É uma ideia que ultrapassa o vínculo biológico, é uma ideia da família que é escolhida. No sentido de que são afetos que atraem e que mantêm as pessoas juntas.”
Baby e Ronaldo: opostos que se atraem
Essa falta de família biológica, a solidão que ela traz e a independência precoce que impõe são os pontos principais que fazem Baby e Ronaldo se identificarem um com o outro e desenvolverem uma relação de afeto e cuidado entre si. Quando se apresentam juntos, eles causam até um certo espanto na primeira família de Ronaldo, composta por sua ex-esposa, Prsicila (Ana Flávia Cavalcanti); a atual namorada dela, Jana (Bruna Linzmeyer); e o filho que ele teve nesse relacionamento anterior.
Mas o aspecto mais interessante dessa relação está na forma como eles agem e pensam de formas diferentes, principalmente no que diz respeito à performance de masculinidade. Em determinado momento, Baby escuta de um cliente que sua geração tem “sorte” porque pode expressar sua orientação sexual ou identidade de gênero livremente, algo impensável no passado. A frase é quase que uma pista para explicar por quê Ronaldo faz tanta questão de se impor como um homem másculo, coibindo a atitude, a postura e os trejeitos afeminados do jovem.
Enquanto Baby não tem medo de se posicionar e se expressar como um jovem gay, a sexualidade de Ronaldo é dúbia até para os próprios membros do elenco, que discordam sobre qual “letra da sigla LGBTQIA+” ele se encaixaria – se é que caberia em alguma.
“Tenho muitas dúvidas se posso colocar o Ronaldo dentro da gaveta da homossexualidade. Acho que ele está se deparando com a possibilidade de amar um homem pela primeira vez na vida dele. Então não sei o quanto ele pode ser uma pessoa bissexual, em descoberta”, defende o diretor.
Para Teodoro, entretanto, a confusão que seu personagem sente com Baby é mais por ter se apaixonado por um rapaz tão jovem e menos por amar outro homem. “Eu acho que talvez seja a primeira vez que ele se apaixona por um moleque. Então, o Ronaldo está ali com 42 anos, se vendo completamente apaixonado por um menino de 18 e que, talvez, enxergue como ele tem toda uma vida pela frente ainda e como a vida está sendo difícil. Tem uma coisa talvez paternal de alguma forma.”
Essa dualidade dos personagens dá o tom de todo o relacionamento e, em partes, é o cerne do romance. Ela é melhor ilustrada quando surge de forma natural, a exemplo da cena em que Ronaldo tenta ensinar Baby a luta boxe e o jovem, em troca, lhe ensina como se postar em um batalha de voguing.
“Eu sinto que tem uma língua ali que é parecida assim, porque é meio que um ringue de batalha. Parece que sai faíscas de fogo. E eu amo essa cena, é uma das minhas favoritas do filme, porque eu acho que ali mostra muito esse encontro dessas duas partes”, comenta Mariano. “É muito bonito, muito potente. Em toda a relação que a gente entra, muitas coisas a gente aprende com o outro. E no final é um lugar de paixão mesmo.”

É explorando essas questões universais e ao mesmo tempo específicas da comunidade LGBTQIA+ que Baby já chega como mais um clássico do cinema queer nacional, principalmente por abraçar todas as nossas contradições e evitar uma versão higienizada dos personagens e suas histórias.
O filme é, inevitavelmente, um romance marcante e comovente, onde o “eu te amo” não é dito sequer uma vez. Mas, nas palavras de Jean Cocteau, “não existe o amor, há apenas provas de amor”. E isso Baby e Ronaldo tiveram de sobra.
Veja aqui as sessões de Baby nos principais cinemas do Brasil. E assista abaixo ao trailer do filme.






























