Dolly Parton, ícone LGBTQIA+, uma das maiores vozes da música country e uma das figuras mais populares da cultura norte-americana, morreu nesta terça-feira (25), aos 80 anos. A morte foi anunciada pela família da cantora nas redes sociais. Segundo informações divulgadas por seu representante, Parton morreu em paz, em Nashville, no Tennessee. A causa da morte não foi revelada.
Ao longo de quase seis décadas de carreira, Dolly construiu uma obra que ultrapassou as fronteiras da música. Dona de sucessos como “Jolene” e “I Will Always Love You”, a artista também foi atriz, empresária e filantropa. Mas, para a comunidade LGBTQIA+, sua importância também está na maneira como, durante décadas, fez questão de defender o direito de cada pessoa amar e viver como é, mesmo quando esse posicionamento poderia contrariar parte de seu público conservador.
O apoio de Dolly com o público LGBTQIA+ começou ainda nos primeiros anos de sua trajetória. Em 1986, durante uma entrevista conduzida por Andy Warhol para a Interview, Dolly Parton falou sobre a grande quantidade de fãs gays que tinha e afirmou que não julgava as pessoas por quem elas eram ou por quem amavam.
“Eu tenho uma enorme base de fãs gays e algumas mulheres bem masculinas. Pra mim, as pessoas são pessoas. Tantos amigos meus são gays, masculinos e femininos. Eu não julgo as pessoas”, declarou.
Dolly Parton: “Amor é amor”
Uma das declarações mais lembradas de Dolly sobre a comunidade LGBTQIA+ veio décadas depois, durante o debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Austrália. Em 2017, questionada pela ABC sobre o tema, ela brincou que os casais gays deveriam poder se casar para serem “tão miseráveis” quanto os casais heterossexuais. Em seguida, porém, abandonou o humor para deixar clara sua posição: “amor é amor”.
“Eu acho que amor é amor e a gente não tem controle sobre isso”, afirmou. Dolly também disse que não cabia a ela julgar ou criticar as pessoas e defendeu que casais do mesmo sexo tivessem o direito de se casar.
A frase resume uma característica que acompanhou sua relação com a comunidade LGBTQIA+ até hoje: Dolly raramente adotava um discurso agressivo ou confrontador. Sua defesa vinha frequentemente acompanhada de humor, afeto e uma mensagem simples de aceitação. Em vez de transformar a diferença em ameaça, a cantora insistia na ideia de que pessoas diferentes poderiam conviver e amar umas às outras.
Dolly Parton, aliada LGBT+ em meio à intolerância
Essa mensagem também apareceu de forma explícita em sua música. Em 1991, Dolly lançou “Family”, uma canção que integra o álbum Eagle when she flies e trata justamente da diversidade dentro de uma família e da necessidade de preservar os laços de afeto apesar das diferenças.
“Quando é família, você perdoa / Quando é família, você os aceita / Alguns pregam, outros são gays / Alguns são viciados, bêbados e perdidos / Mas nenhum é abandonado / É família”, diz a letra.
A canção ganhou um significado ainda maior com o passar do tempo. Em uma indústria country historicamente marcada por valores conservadores, Dolly colocava pessoas gays lado a lado com religiosos. A mensagem era direta: pertencer à família não deveria depender de corresponder a uma expectativa de comportamento.
Em 2016, ao ser questionada sobre leis que proibiam pessoas trans de utilizar banheiros de acordo com sua identidade de gênero, defendeu que todos deveriam ser tratados com respeito e ter a oportunidade de ser quem são.
É justamente essa combinação entre fé, humor e acolhimento que tornou Dolly uma figura singular para o público LGBTQIA+. Sua defesa da comunidade não significava negar suas próprias crenças religiosas, mas, ao contrário, era frequentemente apresentada por ela como consequência de sua fé e de sua compreensão sobre o amor.
Sua relação com a comunidade também apareceu em “Travelin’ Thru”, música composta para o filme Transamerica, de 2005, cuja protagonista é uma mulher trans. A canção rendeu a Dolly uma indicação ao Oscar e reforçou uma aproximação que já existia havia décadas entre a cantora e o público queer.
A cantora também se tornou uma espécie de ícone para a cultura drag. Sua estética exagerada, os cabelos volumosos, o brilho, a maquiagem e a persona cuidadosamente construída fizeram dela uma referência natural para artistas drag. A própria Dolly alimentou essa relação ao longo dos anos e chegou a brincar que, se tivesse nascido homem, provavelmente seria uma drag queen.

Dolly Parton deixa, assim, mais do que canções como “Jolene” e “I Will Always Love You”. Deixa uma ideia de pertencimento. Em um momento em que discursos de exclusão voltam a ganhar espaço, a mensagem de uma das maiores estrelas da música country permanece especialmente poderosa: família, amor e dignidade não deveriam ter orientação sexual ou identidade de gênero.








