Existe alguma família “normal”? O documentário Apolo, que teve sua primeira exibição na noite deste sábado (4), no Festival do Rio, prova que sim e que não. O filme acompanha a jornada do casal trans formado pela atriz Ísis Broken e o multiartista Lourenzo Duvale, o Aqualien, durante a gestação de seu primeiro filho, Apolo. Ao longo dessa jornada, o público testemunha todas as transfobias que eles sofreram no processo, mas também a cumplicidade entre os dois e a força do amor que sentem um pelo outro, pelo filho e que recebem dos familiares.
Codirigido pela própria Ísis e por Tainá Müller, Apolo tem como ponto de partida o início do relacionamento entre Ísis e Lourenzo em meio ao isolamento da covid-19. De cara, a dinâmica entre eles conquista o público e a riqueza de imagens ajuda a contar a história de forma intimista, como se estivéssemos vivendo todas as etapas da história ao lado do casal, desde o primeiro encontro.
O primeiro conflito vem quando, no início da gestação, Lourenzo sofre transfobia ao procurar acompanhamento médico para o bebê. A partir desse episódio, o casal, que até então morava com a família de Ísis, em Aracaju, decide mudar para São Paulo e viver com a mãe do rapaz, de quem ele estava afastado desde o início da sua transição de gênero.

“O filme é uma necessidade de contar histórias parecidas com a minha, porque eu não sou o único. Vários (homens trans) passam por isso, né?”, diz Lourenzo, em entrevista à Híbrida no tapete vermelho do Festival do Rio. “Então, talvez seja aí um pontapé para que isso comece a mudar dentro da cabeça das pessoas.”
No desenrolar da história, vão surgindo situações específicas para a população travesti e transexual, como o fato de Lourenzo só ter conseguido fazer um pré-natal quando já estava no 8º mês de gestação, após encontrar um centro de referência específico para a saúde de pessoas trans, em São Paulo. Mas surgem também pontos de encontro comuns a qualquer casal de primeira viagem, que aproximam a experiência dos dois do público geral.
Apolo mescla cenas de estúdio com imagens de arquivo, redes sociais e longas gravações acompanhando o casal de protagonistas ao longo da gestação. A edição, que também se aproveita da produção riquíssima criada por Ísis em sua carreira musical, confere uma atmosfera lúdica ao nascimento de Apolo, ainda que alguns offs soem excessivos.
“Quando eu pensei nesse filme, eu nunca pensei em fazer um filme de nicho. Principalmente pelo nível de violência que o Brasil tem contra transexuais, eu achei que tinha que ter um ponto de contato com qualquer pessoa, mesmo que não fosse da comunidade, mesmo pessoas mais conservadoras”, explica Tainá Muller. “Então, quando a gente fala da vida e da vinda de uma criança, acaba gerando uma identificação num outro lugar.”
Em seu cerne, o documentário alcança exatamente isso, sanando a curiosidade daqueles que não poderiam sequer imaginar o funcionamento de uma família como a de Ísis e Lourenzo, mas mostrando também a intimidade e as incertezas de escolhas como o método do parto, as formas de amamentação, o pré-natal e a relação com os outros membros da família.

“É um filme que fala sobre amor e sobre uma família brasileira, uma família como qualquer outra”, observa Ísis. “É uma uma jornada em busca de algo muito maior, para mostrar ao Brasil e ao mundo que o amor sempre vence tudo.”
Um dos momentos mais emocionantes surge quando o casal apresenta Ísis para os avós de Lourenzo. “Nenhuma folha cai sem a benção de Deus. Então se o bebê existe é porque foi abençoado”, resume o avô do rapaz, simplificando da forma mais pura o amor e a aceitação que para outros pode parecer tão difícil.
Quando Apolo estreia nos cinemas?
Apolo será lançado no circuito comercial de cinemas em 27 de novembro. Saiba mais aqui.







































