Dois momentos da participação de Luiz Inácio Lula da Silva no podcast Flow durante a última segunda-feira (18) têm rendido acusações de transfobia contra o ex-presidente por apoiadores de Jair Bolsonaro. O posicionamento do petista contra banheiros unissex e uma fala descontextualizada sobre fake news foram compartilhados colocaram a hashtag #LulaTransfobico entre os assuntos mais comentados do Twitter, impulsionada por políticos e militantes bolsonaristas.

Quando questionado pelo apresentador Igor Coelho sobre algumas fake news absurdas que circularam nas eleições 2018, como a suposta “mamadeira de p*roca” que seria distribuída por Fernando Haddad nas escolas, Lula respondeu: “Essas coisas absurdas que eles inventam todo dia não tem critério. São capazes de dizer que você nasceu mulher e depois virou homem. São capazes de dizer que vaca voa, que cavalo tem chifre e boi não tem. Qualquer mentira, não tem tamanho e não tem hora”.

Um trecho descontextualizado da resposta, no qual Lula aparece falando apenas “são capazes de dizer que você nasceu mulher e depois virou homem”, tem sido compartilhado como se o candidato estivesse se referindo a travestis e transexuais. Assista abaixo ao momento completo a partir da marca 9’38”:

Em outra parte da entrevista, Lula comenta ser contra os banheiros unissex. “É absurdo [acreditar que eu vou fazer banheiros unissex]. Esses caras não têm respeito. Eu sou pai de cinco filhos, tenho oito netos dos quais quatro meninas, tenho uma bisneta. Esses caras pensam que podem mentir de qualquer jeito e as pessoas [vão] acreditar? Não é possível as pessoas terem o desplante de contar uma mentira dessas num microfone, dentro de uma igreja”, disse.

Nas redes sociais, Lula repetiu a afirmação de que não vai “fazer banheiros unissex”. No dia seguinte, durante um encontro com lideranças evangélicas em São Paulo, o candidato do PT voltou a tocar no assunto, reforçando quase com as mesmas palavras: “Só pode ter saído da cabeça de satanás a história do banheiro unissex”.

Simultaneamente à transmissão do Flow, na segunda, começou a aparecer uma onda sistemática de perfis que se declaravam apoiadores de Lula e que supostamente teria votado no candidato petista no primeiro turno, mas mudado de ideia após a sua “transfobia”. Ainda no início desta sexta-feira (21), o termo “Lula Transfóbico” rendia aproximadamente 2 mil publicações por hora no Twitter.

A difusão da ideia de que Lula seria transfóbico contou com a ajuda de políticos bolsonaristas como Carla Zambelli (PL) e Nikkolas Ferreira (PL), além de Eduardo (PL) e Flávio Bolsonaro (PL).

O problema é que, como bem apontaram em uma das publicações de Eduardo (veja abaixo), muitos desses perfis que se dizem “arrependidos” sempre foram apoiadores a Bolsonaro. Outros usuários notaram que a maioria dessas contar tinham fotos genéricas, números aleatórios no link e aparentavam ser robôs sistematizados atuando em conjunto.

O que o movimento trans diz sobre “Lula transfóbico”?

No sábado (15), a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) já havia emitido uma nota oficial de apoio e incentivo à candidatura de Lula no segundo turno das eleições 2022, incentivando que a comunidade vote no candidato petista no próximo dia 30. Na terça após a participação do ex-presidente no Flow, a entidade reforçou que não houve mudança em seu posicionamento.

“Lula não é fascista e nem atua contra direitos LGBTQIA. Muito pelo contrário, em 2004 Lula criou o maior programa pelos direitos LGBTQIA a nível federal, ‘BRASIL sem Homofobia’, do qual fizemos parte. Exatamente por isso precisamos que nossa luta esteja incluída na ordem do dia”, publicou a Antra nas redes, afirmando que a “direita no poder é a volta da fome, da pobreza e aumento da violência”.

Na quinta-feira (20), a Antra reforçou a mensagem e fez uma publicação explicando de onde veio o pânico moral sobre a ideia do “banheiro unissex”, que começou ainda em 2018 e voltou à tona este ano com alguns projetos de lei municipais e estaduais que buscam vetar a sua implementação. Uma ilustração esdrúxula de crianças com uniforme usando o mesmo banheiro também faz parte dessa fake news específica, que pede “proteção às nossas crianças e à família”.

“Não existem projetos ou propostas que pretendem implementar banheiros ou espaços de uso coletivo multigênero. Essa não é uma demanda real de pessoas trans e não-bináries. Assim como fizeram com a ‘ideologia de gênero’, ‘kit gay’ e a ‘mamadeira de p*roca’, criaram mais um inimigo em comum, em um novo levante que pretende criminalizar pessoas LGBTQIA+, mas especialmente pessoas trans e NB”, diz o texto.

Ainda segundo a Antra, a polêmica usa do “pânico antitrans” para ganhar notoriedade, “apesar de ser flagrantemente discriminatória e inconstitucional”. “Banheiros públicos unissex já existem e são usados tranquilamente por todas as pessoas – independente do gênero – em aviões, ônibus intermunicipais e estaduais, e até mesmo em empresas”, reforça a organização.

Pessoas trans querem banheiros unissex?

Na mesma publicação, a Antra explica qual é a demanda exata de travestis e transexuais: banheiros que respeitem a identidade de gênero autodeclarada das pessoas transgêneras e a existência de banheiros unissex/multigênero de uso individual, “para além dos masculinos e femininos já existentes, sempre que possível”.


É importante frisar que o uso individual de banheiros unissex já existe e não coloca em risco a segurança de ninguém, uma vez que os espaços não são divididos ao mesmo tempo. A ideia é usar essa medida como uma forma de evitar o constrangimento das pessoas trans em estabelecimentos e outros locais pelo País.

“Não criemos pânico! Estamos atentas e movimentando ações para que esse tipo de proposta não fira nossos direitos ou sigam pautando nossa atuação”, concluiu a Antra, que aproveitou para chamar Lula na publicação: “Corre aqui para saber como se posicionar corretamente sobre o assunto!”.